Cap.32
Dona Katia
era uma mulher prática e não se surpreendeu ao saber que Lua tinha voltado de
repente para a Inglaterra. O que a surpreendeu — e o que a encorajou a nutrir
novas esperanças com relação ao filho — foi o óbvio desconforto de Arthur com
relação ao fato. A verdade era que, em trinta e dois anos, ela jamais o vira
tão transtornado.
Bem, Katia pensou,
enquanto desligava o telefone, não seria problema nenhum se ele ficasse sozinho
por uns dias. Ela ficara secretamente feliz em saber que a relação dele com
Luísa terminara. Nunca aprovara o caso e tinha medo que Arthur pudesse, assim
como tantos outros rapazes, casar-se e continuar com a mesma vida de antes,
dando pouca atenção à sua adorável esposa.
Mas aparentemente
este não era o caso.
Dona Katia
foi contar os fatos ao marido. Não todos, obviamente. Somente o essencial. Não
seria o caso de interferir, ela deixou bem claro para Henrique. Só que era
importante Lua saber que podia contar com ela para ouvi-la, caso
precisasse. Henrique concordou. O casal deveria resolver tudo sozinho.
Depois de
conversar com o marido, a primeira coisa que fez foi convidar a nora para
almoçar no Mark`s Club, só as duas. Ela estava determinada a descobrir o que tinha
ocorrido. Arthur fora irritantemente vago e Lua, educada ao extremo no
telefone. Mas Katia sentia que as coisas estavam piores do que
fizera o marido acreditar. Era hora de fazer uma pequena investigação. Não que
ela quisesse interferir, é claro, mas um determinado ajuste não faria mal.
Suspirando, Lua
concluiu que não poderia recusar o convite. Não que tivesse o mínimo desejo de
ir a Londres. No que lhe dizia respeito, ela poderia ficar enfiada ali em
Thurston Manor para sempre e nunca mais mostrar o rosto ao mundo. Sentia-se
estúpida, feia e despenteada e recusara-se a atender todas as inúmeras ligações
de Arthur. Fazia dias que não lavava os cabelos e suas unhas precisavam de uma
manicure com urgência.
Ela se olhou no
espelho, arrasada. Com um suspiro de exaustão, notou que não poderia sair para
almoçar daquele jeito e teria que se arrumar antes de encontrar a sogra.
Relutantemente, pegou o telefone e marcou cabeleireiro e manicure.
— Então — Dona Katia
disse, ajeitando um dos bancos da sala de jantar do Mark`s —, soube que você e Arthur
encontraram um apartamento em Buenos Aires.
— Bem, sim,
encontramos algo — disse Lua, hesitante, não querendo contar a Dona Katia
sobre sua decisão de se divorciar sem antes falar com Arthur. Ainda não falara
com os advogados, mas isso — ela se convencera — fora por pura falta de tempo.
Afinal, ainda tinha todas aquelas cartas para enviar em agradecimento àqueles
malditos presentes de casamento, que podia muito bem embrulhar e enviar de
volta.
— Oh, mas achei
que fosse definitivo — Katia ergueu a sobrancelha.
— Sim... não. Bem,
na realidade é muito complicado, para dizer a verdade — admitiu Lua. De algum
modo, era muito difícil olhar para Dona Katia, a mulher que fora
tão maravilhosa durante a doença de seu avô, e mentir tão escandalosamente.
Tocando seus
cabelos com uma das mãos, Dona Katia deu um tapinha na mão de Lua
com a outra.
— Eu tenho a
sensação de que talvez as coisas não estejam tão harmoniosas entre você e Arthur
— ela disse.
— Sim, bem, não...
Quero dizer, não é realmente...
— Lua, quero que
você me considere sua amiga, e não sua sogra. Essa palavra é horrível, não? —
ela acrescentou, com uma risada conspiradora. — Afinal, você não tem nem sua
mãe nem sua avó para orientá-la, querida. Antes de continuarmos, deixe-me
apenas acrescentar que tenho uma visão realista sobre meu filho. Não sou uma
dessas mães apaixonadas que acham que seus filhos nunca cometem erros — ela
disse. — Eu tenho total consciência dos... erros... de Arthur.
Continua...

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