segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Casamento por conveniência


Cap.32


Dona Katia era uma mulher prática e não se surpreendeu ao saber que Lua tinha voltado de repente para a Inglaterra. O que a surpreendeu — e o que a encorajou a nutrir novas esperanças com relação ao filho — foi o óbvio desconforto de Arthur com relação ao fato. A verdade era que, em trinta e dois anos, ela jamais o vira tão transtornado.


Bem, Katia pensou, enquanto desligava o telefone, não seria problema nenhum se ele ficasse sozinho por uns dias. Ela ficara se­cretamente feliz em saber que a relação dele com Luísa terminara. Nunca aprovara o caso e tinha medo que Arthur pudesse, assim como tantos outros rapazes, casar-se e continuar com a mesma vida de antes, dando pouca atenção à sua adorável esposa.


Mas aparentemente este não era o caso.


Dona Katia foi contar os fatos ao marido. Não todos, obvia­mente. Somente o essencial. Não seria o caso de interferir, ela deixou bem claro para Henrique. Só que era importante Lua saber que podia contar com ela para ouvi-la, caso precisasse. Henrique concordou. O casal deveria resolver tudo sozinho.


Depois de conversar com o marido, a primeira coisa que fez foi convidar a nora para almoçar no Mark`s Club, só as duas. Ela estava determinada a descobrir o que tinha ocorrido. Arthur fora irritantemente vago e Lua, educada ao extremo no telefone. Mas Katia sentia que as coisas estavam piores do que fizera o marido acreditar. Era hora de fazer uma pequena investigação. Não que ela quisesse interferir, é claro, mas um determinado ajuste não faria mal.


Suspirando, Lua concluiu que não poderia recusar o convite. Não que tivesse o mínimo desejo de ir a Londres. No que lhe dizia respei­to, ela poderia ficar enfiada ali em Thurston Manor para sempre e nunca mais mostrar o rosto ao mundo. Sentia-se estúpida, feia e despenteada e recusara-se a atender todas as inúmeras ligações de Arthur. Fazia dias que não lavava os cabelos e suas unhas precisavam de uma manicure com urgência.


Ela se olhou no espelho, arrasada. Com um suspiro de exaustão, notou que não poderia sair para almoçar daquele jeito e teria que se arrumar antes de encontrar a sogra. Relutantemente, pegou o telefone e marcou cabeleireiro e manicure.


— Então — Dona Katia disse, ajeitando um dos bancos da sala de jantar do Mark`s —, soube que você e Arthur encontraram um apartamento em Buenos Aires.


— Bem, sim, encontramos algo — disse Lua, hesitante, não que­rendo contar a Dona Katia sobre sua decisão de se divorciar sem antes falar com Arthur. Ainda não falara com os advogados, mas isso — ela se convencera — fora por pura falta de tempo. Afinal, ainda tinha todas aquelas cartas para enviar em agradecimento àqueles mal­ditos presentes de casamento, que podia muito bem embrulhar e en­viar de volta.


— Oh, mas achei que fosse definitivo — Katia ergueu a sobran­celha.


— Sim... não. Bem, na realidade é muito complicado, para dizer a verdade — admitiu Lua. De algum modo, era muito difícil olhar para Dona Katia, a mulher que fora tão maravilhosa durante a doença de seu avô, e mentir tão escandalosamente.


Tocando seus cabelos com uma das mãos, Dona Katia deu um tapinha na mão de Lua com a outra.


— Eu tenho a sensação de que talvez as coisas não estejam tão harmoniosas entre você e Arthur — ela disse.


— Sim, bem, não... Quero dizer, não é realmente...


— Lua, quero que você me considere sua amiga, e não sua sogra. Essa palavra é horrível, não? — ela acrescentou, com uma risada conspiradora. — Afinal, você não tem nem sua mãe nem sua avó para orientá-la, querida. Antes de continuarmos, deixe-me apenas acres­centar que tenho uma visão realista sobre meu filho. Não sou uma dessas mães apaixonadas que acham que seus filhos nunca cometem erros — ela disse. — Eu tenho total consciência dos... erros... de Arthur.


Continua...

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