Cap.24
A mulher virou e
lançou um longo olhar na direção dela. Então, inclinou-se para a frente e
murmurou algo para a mulher sentada ao seu lado, que por sua vez virou-se para
a vizinha. De repente, todas estavam olhando para Lua criticamente e Lua
sentiu-se enrubescer, apesar de sua determinação de continuar como se nada
estivesse acontecendo.
— Não preste
atenção nelas — Elisa disse, acenando para Luísa. — Elas não vão fazer mal
algum, só estão curiosas com relação a você. Afinal, Arthur é um partidão.
Luísa e ele estiveram juntos por alguns anos e, honestamente, tudo isso deve
ter sido um choque para ela.
— Acredito. Deve
ter sido — concordou Lua, de repente vendo o outro lado da moeda. Realmente
devia ter sido muito difícil para Luísa ser descartada de um dia para o outro.
Por um momento, até sentiu pena dela. Os sentimentos de outras pessoas não
foram levados em conta no casamento arranjado deles e de repente ela imaginou
se Arthur realmente rompera com Luísa.
Uma ligeira dúvida
a acometeu, quando ela se lembrou da noite na casa do avô, em que passara em
frente à porta do quarto de Arthur e ouviu-o dizer ‘Sempre
vou adorá-la’. Será que ele estava falando com Luísa?
Ela olhou
furtivamente na direção da moça, não querendo parecer óbvia. Luísa era altiva e
se vestia bem. Seus cabelos negros e longos caíam sobre sua caxemira branca, na
altura dos ombros. Ela vestia calça de camurça e botas de
salto alto, e parecia ter segurança em cada centímetro, pensou Lua. Será que
uma mulher que acabara de ser abandonada por Arthur, com quem tinha
publicamente um caso, ficaria se exibindo deste jeito em um restaurante? Rindo,
com os cotovelos apoiados na mesa, as unhas perfeitamente feitas em dedos
adornados por diamantes brilhantes e muito bem polidos, conversando como se
não tivesse qualquer preocupação no mundo?
Talvez fosse
apenas uma saída, e por dentro ela estivesse sofrendo, mas a exuberância da
mulher e sua autoconfiança deixaram Lua sentindo-se um pouco... não exatamente
malvestida, mas talvez um tanto fora de moda.
— Vamos comprar
roupas hoje à tarde — ela disse de repente à sua companheira. — Gostaria de
comprar alguns dos maravilhosos artigos de camurça que eles têm por aqui...
algumas saias, calças, essas coisas.
— É claro — disse
Elisa, sorrindo, retirando os cabelos castanhos do seu belo rosto bronzeado. —
Vou levá-la à minha loja predileta agora mesmo.
Lua sentiu alívio
quando elas saíram do restaurante e ficou livre dos olhares inquisidores que
sentia sobre ela.
Conforme a tarde
passava e elas visitavam várias lojas e butiques, a sensação de desconforto e
constrangimento que a tomara foi passando, e quando ela chegou no Alvear,
carregada de sacolas de compras, sentia-se já recomposta e relaxada.
****************
Arthur saiu do
avião em Córdoba, onde seu gerente o esperava
para levá-lo de carro até a fazenda. Mas primeiro ele tinha uma reunião
marcada com o governador da província e alguns detalhes bancários para
resolver.
No entanto, cerca
de quatro da tarde ele ja estava cavalgando pelos pampas, inspecionando seu
rebanho, com a cabeça cheia dos detalhes com que tinha que prestar atenção.
Então, quando
voltava para a fazenda, teve tempo para pensar sobre tudo o que acontecera nas
últimas semanas, em como sua vida linha dado uma guinada e em como estava
estranhamente feliz. A única coisa que o incomodava era o comportamento
imperdoável que tivera com Luísa. Afinal, ela já devia saber que ele estava de
volta à cidade, alguém certamente já lhe teria contado e ela devia estar se
perguntando por que ele não entrara em contato.
Na verdade, ele
estava se perguntando a mesma coisa.
Ele tinha passado
seu tempo levando Lua para passear, procurando o apartamento e
várias outras pequenas coisas, mas isso ainda não explicava sua relutância em
encarar Luísa e ter a conversa final que sabia que devia a ela, que teria que
acontecer em um momento ou outro, no futuro.
Ele suspirou e
diminuiu o passo de trote de sua montaria. Era verdade. Talvez a melhor coisa
fosse arrumar um tempo para vê-la quando voltasse para a cidade. Assim, não
seria obrigado a mentir para a esposa, não teria que misturar as coisas. De
alguma forma, era extremamente importante que a confiança frágil que
estabelecera com Lua durasse. A última coisa que queria era que sua amante —
ex-amante, ele lembrou — procurasse sua esposa a qualquer momento.
Continua...

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