#maratonaparte5/10
Arthur ergueu a sobrancelha ante aquela analogia crua e totalmente
inesperada. Porém, ainda mais surpreendente do que as palavras foi à amargura
que sentiu na voz de Lua.
Ela devia ter sido perversamente usada no passado. Não era de espantar
que ele a deixasse nervosa.
Uma imagem de Penélope passou por sua mente, e ele sentiu uma pontada de
dor tão violenta no peito que somente seu firme treinamento militar impediu que
estremecesse.
Ele tinha muito a expiar. Pecados tão grandes que nem mesmo dois mil
anos podiam compensar. Não era um bastardo apenas de nascimento, por causa de
uma vida brutal de desespero e traição, ele verdadeiramente se tornara um.
Fechando os olhos, obrigou-se a afastar esses pensamentos. Aquilo era
literalmente história antiga, e este era o presente.
Lua era o presente. E ele estava ali por ela.
Compreendia, agora, o que Mel quisera dizer quando lhe falara a respeito
da amiga. Era por isso que estava ali. Precisava mostrar a Lua que sexo era
agradável.
Nunca tinha se deparado com uma situação semelhante. Ao fitá-la, um
sorriso lento curvou seus lábios.
Esta seria a primeira vez na vida que precisaria perseguir uma mulher
para que fosse sua amante. Nenhuma delas jamais recusara seu corpo. Com a
inteligência e a teimosia de Lua, sabia que levá-la para a cama seria tão
desafiador quanto superar o exército romano.
Sim, ele iria saborear isso. Assim como a saborearia. Cada pedacinho
doce e sardento dela.
Lua engoliu em seco diante do primeiro sorriso verdadeiro que via
naquele belo rosto. Um sorriso que suavizava as feições duras, tornando-o ainda
mais devastador.
No que ele estaria pensando? Pela milésima vez, ela sentiu o rosto se
aquecer ao se lembrar das palavras duras que dissera.
Não pretendera deixar aquilo escapar. Não costumava revelar seus
pensamentos para ninguém, especialmente para um estranho. Mas havia algo tão
atrativo nesse homem...
Algo que a tocava de uma forma perturbadora.
Talvez fosse a dor mal disfarçada que brilhava nos celestiais olhos
verdes, quando o pegava distraído. Ou talvez fossem apenas seus anos de
treinamento em psicologia que a impediam de suportar o pensamento de ter uma
alma tão inquieta em sua casa e não ajudá-la. Não sabia.
O relógio de pêndulo que ficava no corredor do andar de cima soou uma
hora.
- Meu Deus! - ela exclamou, chocada por já ser tão tarde. - Preciso me
levantar para o trabalho às seis.
- Você vai para a cama? Para dormir?
Se o humor dele não estivesse tão sombrio, seu olhar atordoado a teria
feito rir.
- Eu preciso fazer isso.
As sobrancelhas dele se uniram em... Sofrimento?
- Algo errado? - ela quis saber. Ele meneou a cabeça. - Bem, então eu
vou mostrar onde pode dormir e...
- Não estou com sono. - Lua espantou-se.
- O quê?
Arthur olhou para ela, incapaz de encontrar as palavras que pudessem
exprimir o que sentia. Estivera preso no livro por tanto tempo que tudo o que
desejava fazer era correr ou pular.
Queria fazer qualquer coisa para celebrar sua repentina liberdade de
movimento. Não queria ir para a cama.
O pensamento de se deitar na escuridão por mais um minuto... Esforçou-se
para respirar.

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