sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Amante da fantasia - Cap. 28



Lua tomou um longo banho frio.


O que havia em Arthur que fazia seu sangue literalmente ferver? Ela ainda podia sentir o calor daquele corpo másculo junto ao seu. Os lábios dele em sua...


Pare com isso, pare com isso, pare com isso! Ela não era uma ninfomaníaca incapaz de controlar-se. Era uma doutora, com um cérebro... E sem hormônios. Ainda assim, seria tão fácil apenas se esquecer de tudo e passar o mês inteiro na cama com Arthur.


- Certo. - disse a si mesma. - Vamos dizer que você se enfie com ele na cama por um mês. O que vai acontecer depois? - Ela se ensaboou, e a irritação dispersou o restante do desejo. - Vou lhe dizer o que vai acontecer. Ele vai embora, e você, querida, vai ficar sozinha de novo. Lembra o que aconteceu depois de Paul? Lembra como se sentiu, vagando pelo quarto, nauseada por ter deixado alguém usar você? Lembra como foi humilhante?


E o que era pior, ela ainda conseguia escutar a risada zombeteira de Paul ao gabar-se para os amigos e cobrar a aposta. Como ela desejara ter se transformado em um homem por tempo suficiente para chutar a porta do apartamento dele e espancá-lo.


Não, ela não permitiria que a usassem. Levara anos para superar Paul e a crueldade dele, e não arruinaria tudo aquilo por um capricho. Nem mesmo por um lindo capricho! Não, não e não!


Da próxima vez em que se entregasse a um homem, seria a alguém com quem estivesse comprometida. Alguém que se importasse com ela. Alguém incapaz de fazer pouco caso de sua dor e continuar usando seu corpo para o próprio prazer, como se ela não significasse nada, ela pensou, enquanto as memórias reprimidas vinham à tona de forma turbulenta.


Paul agira como se ela nem mesmo estivesse lá. Como se ela não fosse nada além de uma boneca sem emoções, projetada unicamente para proporcionar-lhe prazer. E ela não permitiria que ninguém, especialmente Arthur, a tratasse daquela forma. Nunca mais.


Arthur desceu as escadas, maravilhando-se com a luz do sol que penetrava pelas janelas.


Era engraçado como as pessoas não valorizavam coisas pequenas como essas. Recordava-se de um tempo em que ele também não reparava em algo tão simples quanto uma manhã ensolarada.


Agora, cada vez era um verdadeiro presente dos deuses. Um presente que ele apreciaria durante o próximo mês, até que fosse novamente forçado a viver na escuridão.


Com o coração pesado, foi até a cozinha e dirigiu-se ao armário grande onde Lua armazenava a comida. Ao abrir a porta, a baixa temperatura o surpreendeu.


Estendeu a mão, deixando o ar frio passar sobre sua pele. Incrível! Pegou vários recipientes, mas não conseguiu ler os rótulos.


- Não coma nada que não consiga identificar. - lembrou a si mesmo, recordando algumas das coisas repulsivas que vira as pessoas comerem ao longo dos séculos.


Inclinando-se, procurou mais um pouco até encontrar um melão maduro em uma gaveta na parte de baixo. Após levá-lo até a ilha no centro da cozinha, pegou uma faca grande de um bloco no qual havia outras, e cortou-o ao meio.


Retirando uma fatia, levou-a até a boca. Gemeu baixinho quando a deliciosa umidade atingiu suas papilas gustatórias. A polpa doce fez seu estômago roncar com uma necessidade intensa. A garganta ansiava por mais daquele umedecimento suavizante. Era tão bom ter comida outra vez. Ter algo com o que saciar a fome e a sede.


Antes que conseguisse deter-se, deixou a faca de lado e agarrou o melão, arrancando pedaços e enfiando-os na boca o mais rápido possível. Deus, ele estava faminto! E sedento. 
Porém, só tomou consciência de suas ações ao notar que agarrava a casca.


Parou e olhou para a mão coberta com o caldo da fruta, para os dedos presos na casca, como as garras de um animal.


"Vire para cá, Arthur, e olhe para mim. Agora, seja um bom menino e faça o que eu lhe disser. Toque-me aqui. Hum... sim, é isso. Bom menino, bom menino. Se me agradar bastante, eu trarei comida para você daqui a pouco."


Ele se encolheu com a lembrança involuntária de sua última encarnação. Não era de admirar que agisse como um animal fora tratado como um por tanto tempo que mal se lembrava de ser humano.


Pelo menos, Lua não o acorrentara à cama. Ainda.


Desgostoso, olhou ao redor, grato por ela não ter presenciado aquela falha de autocontrole. Ofegando, pegou a metade do melão e jogou-a no receptáculo de lixo que vira Lua usar na noite anterior. Então, foi até a pia para lavar a doçura viscosa de suas mãos.


Assim que a água fria tocou-lhe a pele, ele suspirou de prazer. Água. Pura e fria. Era do que mais sentia falta durante o confinamento. Era pelo que ansiava hora após hora, enquanto sua garganta ressecada ardia.


Permitiu que o líquido deslizasse por sua pele antes de represá-lo nas mãos em forma de concha, inclinar-se e bebê-lo de suas palmas, sugá-lo dos dedos. A água provocava um enorme alívio, conforme invadia sua boca e descia por sua garganta ardente, satisfazendo sua sede.


Não queria nada além de poder subir na pia e senti-la percorrer seu corpo inteiro. De...


Ouviu uma batida na porta, seguida de passos apressados nas escadas. Fechando a torneira, Arthur pegou o tecido seco perto da pia e enxugou as mãos e o rosto.


Ao retornar para a outra metade do melão, reconheceu a voz de Mel.


- Onde ele está?


Arthur meneou a cabeça ao notar o entusiasmo dela. Aquilo era o que tinha esperado de Lua.



Continua....

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