#MaratonaParte9/10
Mais tarde, naquela noite, caí no sono pensando na afirmação
de mamãe, de que a aversão podia se transformar em desejo. Com certeza isso não
era verdade. Ou era? Ninguém mais acreditava em alquimia. Não era possível
criar ouro a partir de pedras ou de chumbo. Mas, quando dormi, sonhei com Arthur.
Estávamos de pé na cozinha e ele segurava aquela colher perto do meu rosto. Só
que não estava mais cheia de tofu congelado. Estava cheia da calda de chocolate
mais deliciosa e luxuriante que se poderia imaginar.
– Experimente – instigou Arthur, apertando a colher de leve
contra meus lábios. – O chocolate é um dos maiores prazeres da vida. – Seus
olhos negros reluziam. – Um deles, pelo menos. Senti vontade de protestar.
Estou gorda... muito gorda... Mas ele ficava segurando aquela colher e o
chocolate, começando a pingar, era tentador demais para que qualquer mortal
resistisse. Acabei abocanhando tudo. Era suave como seda na minha língua. Juro
que senti o gosto. Apertei a mão de Arthur com força, firmando-a e fechando os
olhos enquanto engolia o resto do doce elixir imaginário. Quando terminei e
abri os olhos, a colher havia desaparecido, como acontece com as coisas nos
sonhos, e éramos só Arthur e eu, meus dedos entrelaçados nos dele, meu peito e
minhas curvas pressionadas contra seu corpo firme. Ele sorriu para mim,
revelando aqueles dentes incríveis de um branco surreal.
– Você não se arrependeu disso, certo? – perguntou ele, e
começou a cheirar meu pescoço. – Foi perfeito, não foi? – sussurrou no meu
ouvido. Então Arthur me envolveu completamente com seus braços fortes, me
abraçou, me apertou... E aí acordei, estatelada na cama. Estava amanhecendo e a
luz do sol entrava pela minha janela. Eu estava ofegante. Uau. Fiquei de lado,
encolhida. Estava voltando à realidade quando a luz do sol se refletiu em
alguma coisa brilhante no piso ao lado da porta fechada. Um marcador de prata
se projetando de um livro. Um volume fino. Aquilo não estava ali quando me
deitei.
Devem ter passado por baixo da porta. Afastei as cobertas,
peguei o livro e virei-o para ler o título: Crescendo como morto-vivo – Um guia
para o vampiro adolescente sobre namoro, saúde e emoções. A parte de cima do
marcador estava gravada com um LV, em letras grossas. Ah, meu Deus, não. O guia
de que Arthur falou no dia em que nos conhecemos. Tive uma vaga lembrança de
ele ter mencionado aquilo – logo depois de anunciar seus planos de me morder.
Desabei no chão, olhando o presente não desejado. Então,
mesmo contra o bom senso, abri nas páginas marcadas, lendo o capítulo
intitulado “Mudanças no seu corpo”. Ah, fala sério! Havia um trecho sublinhado
em tinta vermelha. “As jovens damas tendem a se sentir confusas com as mudanças
no corpo. Mas não fiquem com vergonha! Desenvolver curvas é parte natural de se
tornar uma vampira adulta.” Contive a vontade de gritar. Não preciso dos
conselhos de Arthur Vladescu sobre me tornar “adulta”, especialmente uma
“vampira adulta”.
E quem escreveu essa porcaria, afinal? Quem publicaria um
livro de educação sexual para seres míticos? Isso só serviria para alimentar a
loucura de gente iludida... Antes que eu jogasse aquela coisa no cesto de lixo,
que era o lugar adequado, dei uma olhadinha rápida nas páginas iniciais,
procurando o nome da editora. Mas um bilhete escrito à mão atraiu meu olhar.
Querida Roberta, Claro que nunca precisei de conselhos em nenhum desses tópicos
– por favor, “emoções”? –, mas achei que você, como “recém-chegada”, por assim
dizer, pudesse encontrar alguma utilidade neste guia. Apesar do tom irritante e
superficial, ele é bastante respeitado por nossa raça. Aproveite – e me
consulte se tiver dúvidas. Eu me considero um especialista. A não ser no
quesito “emoções”.
Seu, A.
P.S.: Sabia que você
ronca? Acho que tem sonhos agradáveis!
Ele simplesmente não
desistia. Quando fechei o livro, notei que havia algo enfiado perto das páginas
finais. Um envelope. Era macio e quase transparente. Respirei fundo ao perceber
que continha uma foto.
Mesmo através do papel pude distinguir a imagem de uma
mulher. Não. Eu sabia, mesmo sem olhar, quem estava na foto.
Minha mãe biológica... Enfiei o envelope de volta no livro. Arthur
não iria me manipular, não me forçaria a encarar o passado. Não podia me
obrigar a olhar para a mulher perturbada que tinha me entregado a estranhos.
Lutando contra a raiva – raiva de Arthur, dos segredos tristes e embaraçosos do
meu passado –, joguei o livro embaixo da cama. Não queria que mamãe o
encontrasse ao esvaziar meu cesto de lixo.
Eu poderia rasgá-lo e enterrá-lo na pilha de adubo mais
tarde. Enquanto o volume fino deslizava pelo piso de madeira até parar em meio
aos cotões de poeira, fiquei pasma com uma constatação: será que Arthur estava
parado do outro lado da porta enquanto eu sonhava com ele? Ai, que vergonha.
Por que fui ter aquela fantasia noturna? E o que Arthur quis dizer com “sonhos
agradáveis”? Por que escreveu aquilo? Só esperava que, além de roncar – coisa que
eu não fazia –, eu não falasse durante o sono. Então me lembrei, com algo mais
do que apenas receio, de que havia concordado em encontrar Arthur sozinho em
seu apartamento, naquela noite.
Continua...

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