#MaratonaParte7/10
Existem forças no Universo que simplesmente não somos
capazes de explicar. É. Forças como a gravidade de um buraco negro distorcendo
o tempo. E a infinitude de pi vagando pelo Universo. Essas eram forças e
realidades verdadeiras. Misteriosas, é claro. Mas também mensuráveis e talvez compreensíveis
se aplicássemos matemática e física. Por que meus pais não conseguiam entender
isso? Por que precisavam olhar o mundo e enxergar magia e sobrenatural onde eu
via números e elementos?
– Eu não gosto do Arthur, mamãe, então pode esquecer a alquimia,
a aversão e principalmente o desejo – anunciei, enxaguando o pirex. Mamãe não
pareceu convencida enquanto enxugava mais pratos.
– Bom, se os seus sentimentos mudarem, pode conversar
comigo. Tenho a sensação de que Arthur é um rapaz muito experiente. Eu não
gostaria que você se sentisse perdida...
– Roberta está perdida em alguma coisa? Posso ajudar? Mamãe
e eu nos viramos e vimos Arthur parado junto à porta da cozinha. Há quanto
tempo estava ali? O que será que ouviu? “Aversão vira desejo”? Se mamãe ficou
sem graça por ser apanhada falando de Arthur pelas costas, isso não se revelou
no seu rosto.
– Ro vai ficar bem, Arthur. Mas obrigada por perguntar. O
que o traz lá da garagem?
– Desejo por aquele
delicioso sorvete de tofu e alfarroba que a senhora guarda no freezer. – Arthur
foi até a geladeira e abriu a porta de cima. – Estão servidas?
– Eu vou ao estábulo ver uns gatinhos que seu pai achou –
respondeu mamãe, falando comigo. – Acho que podemos abrigar mais uma ninhada,
mas gosto de fingir resistência. Se encorajá-lo demais, ele vai extrapolar. –
Ela deu um tapinha no ombro de nosso estudante de intercâmbio enquanto saía da
cozinha. – Boa noite, Arthur.
– Tenha uma noite agradável, Dra. Packwood. – Arthur pôs a
imitação de sorvete na bancada e pegou duas tigelas no armário, estendendo-as
em minha direção. – Roberta, posso tentá-la?
– Obrigada, mas estou
evitando sobremesa.
– Por quê? – Arthur
pareceu curioso. – Sei que alfarroba não é o sabor mais atraente do mundo, mas
as sobremesas são um dos maiores prazeres da vida, não acha? Raramente deixei
de comer, a não ser quando seu pai tentou fazer aquela torta de abóbora sem
ovos ou leite. Nem valia o esforço de levar o garfo à boca. Tirei o protetor do
ralo da pia, deixando a água escoar.
– Você não é gordo.
Pode comer sobremesa. Quando levantei o olhar do redemoinho de água, Arthur
franzia a testa e me olhava de cima a baixo. – O que é? – Olhei para minha
camiseta regata e meu short. – Tem alguma coisa em mim?
– Certamente você não
acha que está acima do peso, Roberta – disse ele, com incredulidade nos olhos.
– Você acreditou naquele imbecil que a provocou no refeitório? Eu sabia que
deveria tê-lo silenciado.
– Isso não tem nada a
ver com Dormand, que é problema meu, não seu. Só preciso perder um quilo, só
isso. Fica tranquilo. Arthur abriu o pote, balançando a cabeça.
– Mulheres
americanas. Por que todas vocês querem ficar quase invisíveis? Por que abrir
mão de ter uma presença física no mundo? As mulheres deveriam ter curvas e não
ângulos. – Com um tremor debochado que ele geralmente reservava para a
culinária de papai, acrescentou: – As mulheres americanas são pontudas demais,
todas projetando omoplatas e ossos do quadril.
– Está na moda ser magra – argumentei. – É bonito.
– Nunca se deve confundir moda com beleza –
corrigiu Arthur. – Confie em mim: os homens não gostam do que dizem as revistas
de moda. Eles não acham que as mulheres esqueléticas são bonitas. A maioria
prefere curvas. – Ele enfiou uma colher no tofu congelado e avançou em minha
direção, estendendo-a para o meu rosto. Continua...

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