domingo, 31 de janeiro de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 27



#MaratonaParte7/10


– Hoje vamos discutir o conceito dos números transcendentais – anunciou o técnico da nossa equipe de matemática, o Sr. Jaegerman, esfregando as mãos com
júbilo aritmético.

Nós, os cinco matematletas, nos inclinamos sobre os cadernos, com canetas a postos.

– Um número transcendental é qualquer número não algébrico e que não é raiz de nenhum polinômio inteiro – começou o Sr. Jaegerman.

A mão de Mike Danneker se levantou.

– Como pi.

– Isso – concordou o técnico, batendo com o giz no quadro para escrever o símbolo de pi.

– Exato. – Ele já estava suando um pouco. O Sr. Jaegerman era careca, estava um pouco acima do peso e usava roupa de poliéster, mas tinha um entusiasmo admirável pelos números.

Escrevi o símbolo π no caderno, desejando que não estivéssemos perdendo tempo com conceitos teóricos. Eu preferia enfrentar problemas práticos a ficar abordando ideias abstratas.

– Pi é um exemplo excelente de número transcendental – continuou o professor. – A razão entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro. Todos estamos familiarizados com pi. Mas em geral paramos no 3,14 quando o usamos. No entanto, como todos sabemos, pi é muito mais longo. E ainda que tenhamos calculado pi até mais ou menos o trilionésimo dígito, não há final em vista. Ele é infinito, “insolucionável”. E esta é a parte espantosa: os números não formam nenhum padrão.

Ele escreveu no quadro: 3,1415926535897932...

– Ele continua e continua, aleatoriamente. Para sempre.

Todos paramos, absorvendo isso. É claro que, como estudantes interessados em
matemática, todos havíamos pensado em pi antes. Porém, a ideia daqueles números se estendendo através de galáxias, do tempo, era muito perturbadora. Quase irritante. Impossível de compreender.

– E, obviamente – o Sr. Jaegerman interrompeu nossa viagem –, um número transcendental como pi é, por definição, irracional.

Ele fez uma pausa para que o acompanhássemos e eu escrevi irracional no meu caderno. A palavra parecia me encarar da página. Nos recessos de minha mente, ouvi minha mãe dizer: “Roberta, existem forças no Universo que não somos capazes de explicar...
Almas unidas por toda a eternidade. Arthur dissera isso naquela vez em que falou da cerimônia de noivado. Arthur, a pessoa menos racional que já conheci. Vampiros e pactos são irracionais. Como pi?

– Srta. Packwood?

Meu nome me puxou de volta com força para a realidade. Ou o que eu pensava que era a realidade. Por que de repente tudo parecia tão incerto?

– Sim, Sr. Jaegerman.

– Tive a impressão de que estava sonhando acordada. – Ele sorriu. – Achei que deveria trazê-la de volta à realidade.

– Desculpa – respondi. Realidade.

O Sr. Jaegerman obviamente acreditava nela. Com certeza não acreditaria em coisas irreais. Como vampiros. Ou destinos eternos. Ou aversão transformada em desejo. A realidade era o gosto da caneta de plástico na minha boca. A visão da gravata horrenda do professor. A sensação da mesa lisa sob as pontas dos meus dedos. É. Realidade. Era bom estar de volta. E era ali que eu precisava ficar.
Mas quando me concentrei de novo nas anotações, percebi que havia rabiscado um esboço grosseiro de um par de presas bem afiadas na margem do caderno. Nem tinha notado isso. Apertando a caneta com força, risquei o desenho até cobrir cada traço.



Continua...

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