#MaratonaParte7/10
– Hoje vamos
discutir o conceito dos números
transcendentais – anunciou o técnico da nossa equipe de matemática, o Sr.
Jaegerman, esfregando as mãos com
júbilo aritmético.
Nós, os cinco matematletas, nos
inclinamos sobre os cadernos, com canetas a postos.
– Um número transcendental é qualquer número
não algébrico e que não é raiz de nenhum polinômio inteiro – começou o Sr.
Jaegerman.
A mão de Mike Danneker se levantou.
– Como pi.
– Isso – concordou o técnico, batendo
com o giz no quadro para escrever o símbolo de pi.
– Exato. – Ele já estava suando um
pouco. O Sr. Jaegerman era careca, estava um pouco acima do peso e usava roupa
de poliéster, mas tinha um entusiasmo admirável pelos números.
Escrevi o símbolo π no caderno,
desejando que não estivéssemos perdendo tempo com conceitos teóricos. Eu
preferia enfrentar problemas práticos a ficar abordando ideias abstratas.
– Pi é um exemplo excelente de número
transcendental – continuou o professor. – A razão entre a circunferência de um
círculo e seu diâmetro. Todos estamos familiarizados com pi. Mas em geral
paramos no 3,14 quando o usamos. No entanto, como todos sabemos, pi é muito
mais longo. E ainda que tenhamos calculado pi até mais ou menos o trilionésimo dígito,
não há final em vista. Ele é infinito, “insolucionável”. E esta é a parte
espantosa: os números não formam nenhum padrão.
Ele escreveu no quadro: 3,1415926535897932...
– Ele continua e continua,
aleatoriamente. Para sempre.
Todos paramos, absorvendo isso. É claro
que, como estudantes interessados em
matemática, todos havíamos pensado em
pi antes. Porém, a ideia daqueles números se estendendo através de galáxias, do
tempo, era muito perturbadora. Quase irritante. Impossível de compreender.
– E, obviamente – o Sr. Jaegerman
interrompeu nossa viagem –, um número transcendental como pi é, por definição, irracional.
Ele fez uma pausa para que o acompanhássemos
e eu escrevi irracional
no meu
caderno. A palavra parecia me encarar da página. Nos recessos de minha mente,
ouvi minha mãe dizer: “Roberta, existem forças no Universo que não somos
capazes de explicar...”
Almas unidas por
toda a eternidade. Arthur
dissera isso naquela vez em que falou da cerimônia de noivado. Arthur, a pessoa
menos racional que já conheci. Vampiros e pactos são irracionais. Como pi?
– Srta. Packwood?
Meu nome me puxou de volta com força
para a realidade. Ou o que eu pensava que era a realidade. Por que de repente
tudo parecia tão incerto?
– Sim, Sr. Jaegerman.
– Tive a impressão de que estava
sonhando acordada. – Ele sorriu. – Achei que deveria trazê-la de volta à
realidade.
– Desculpa – respondi. Realidade.
O Sr. Jaegerman obviamente acreditava
nela. Com certeza não acreditaria em coisas irreais. Como vampiros. Ou destinos
eternos. Ou aversão transformada em desejo. A realidade era o gosto da caneta
de plástico na minha boca. A visão da gravata horrenda do professor. A sensação
da mesa lisa sob as pontas dos meus dedos. É. Realidade. Era bom estar de volta. E
era ali que eu precisava ficar.
Mas quando me concentrei de novo nas
anotações, percebi que havia rabiscado um esboço grosseiro de um par de presas
bem afiadas na margem do caderno. Nem tinha notado isso. Apertando a caneta com
força, risquei o desenho até cobrir cada traço.
Continua...

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