A manhã parecia arrastar-se conforme Lua atendia os pacientes habituais.
Não importava o quanto se esforçasse para se concentrar neles e em seus
problemas, ela não conseguia.
Repetidamente, ela via a pele dourada e os intensos olhos verdes. E
aquele sorriso... Gostaria que Arthur nunca tivesse sorrido para ela. Aquele
sorriso podia definitivamente ser sua perdição.
-... E aí eu disse: Dave veja, se você quiser pegar minhas roupas
emprestadas, tudo bem, mas deixe de fora meus vestidos caros e feitos sob
medida porque, se você ficar melhor neles do que eu vou querer doá-los para o
Exército da Salvação. Então, eu estava certa, doutora?
Lua desviou o olhar de seu bloco de anotações, onde rabiscava desenhos
de homens-palito carregando lanças.
- O que, Rachel? - indagou a paciente sentada na poltrona à sua frente.
Rachel era uma fotógrafa que se vestia com elegância.
- Eu estava certa em dizer a Dave para deixar de usar as minhas roupas?
Quero dizer, droga, é bem ruim quando seu namorado fica melhor do que você nas
suas roupas, certo?
Lua assentiu.
- Com certeza. As roupas são suas e você não deveria precisar
trancá-las.
- Eu sabia! Foi o que eu disse a ele. Mas ele me escuta? Não. Ele pode
se chamar de Davida o quanto quiser, e dizer que é uma mulher no corpo de um
homem, mas, na verdade, ele ainda me ouve do mesmo jeito que meu ex-marido. Eu
juro...
Lua inadvertidamente checou de novo o relógio. Sua hora com Rachel
estava quase acabando.
- Sabe, Rachel - disse, interrompendo a paciente antes que ela iniciasse
o discurso habitual a respeito de homens e seus hábitos irritantes -, talvez
devêssemos discutir esse assunto na nossa sessão de segunda-feira com Dave, não
é?
Rachel anuiu.
- Certo. E me lembre na segunda de que eu preciso falar sobre Chico.
- Chico?
- O chihuahua que vive na casa ao lado da minha. Eu juro que o cachorro
está me lançando aquele olhar.
Lua franziu o cenho. Com certeza, Rachel não podia estar insinuando o
que ela pensou ter entendido.
- Aquele olhar?
- Você sabe. Aquele olhar. Ele pode parecer um cachorro, mas aquele
animal tem sexo na cabeça. Toda vez que eu passo, ele olha por baixo da minha
saia. E você não vai querer saber o que ele fez com meus tênis de corrida. O
cão é um pervertido.
- Está bem. - Lua interrompeu-a outra vez. Estava começando a suspeitar
que não havia nada que pudesse fazer por Rachel e sua obsessão de que todos os
machos no mundo estavam desesperados para possuí-la.
- Com certeza, nós falaremos sobre a paixão do chihuahua por você.
- Obrigada, doutora. Você é o máximo.
Rachel pegou a bolsa que estava no chão e saiu do consultório.
Lua esfregou a testa enquanto as palavras da paciente ecoavam em sua
cabeça. Um chihuahua? Céus!
Pobre Rachel. Seguramente haveria uma forma de ajudá-la. Contudo, seria
infinitamente melhor ter um chihuahua olhando sob a saia com lascívia do que um
escravo sexual grego.
Continua...

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