terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Amante da fantasia - Cap. 30



A manhã parecia arrastar-se conforme Lua atendia os pacientes habituais. Não importava o quanto se esforçasse para se concentrar neles e em seus problemas, ela não conseguia.


Repetidamente, ela via a pele dourada e os intensos olhos verdes. E aquele sorriso... Gostaria que Arthur nunca tivesse sorrido para ela. Aquele sorriso podia definitivamente ser sua perdição.


-... E aí eu disse: Dave veja, se você quiser pegar minhas roupas emprestadas, tudo bem, mas deixe de fora meus vestidos caros e feitos sob medida porque, se você ficar melhor neles do que eu vou querer doá-los para o Exército da Salvação. Então, eu estava certa, doutora?


Lua desviou o olhar de seu bloco de anotações, onde rabiscava desenhos de homens-palito carregando lanças.


- O que, Rachel? - indagou a paciente sentada na poltrona à sua frente. Rachel era uma fotógrafa que se vestia com elegância.


- Eu estava certa em dizer a Dave para deixar de usar as minhas roupas? Quero dizer, droga, é bem ruim quando seu namorado fica melhor do que você nas suas roupas, certo?


Lua assentiu.


- Com certeza. As roupas são suas e você não deveria precisar trancá-las.


- Eu sabia! Foi o que eu disse a ele. Mas ele me escuta? Não. Ele pode se chamar de Davida o quanto quiser, e dizer que é uma mulher no corpo de um homem, mas, na verdade, ele ainda me ouve do mesmo jeito que meu ex-marido. Eu juro...


Lua inadvertidamente checou de novo o relógio. Sua hora com Rachel estava quase acabando.


- Sabe, Rachel - disse, interrompendo a paciente antes que ela iniciasse o discurso habitual a respeito de homens e seus hábitos irritantes -, talvez devêssemos discutir esse assunto na nossa sessão de segunda-feira com Dave, não é?


Rachel anuiu.


- Certo. E me lembre na segunda de que eu preciso falar sobre Chico.


- Chico?


- O chihuahua que vive na casa ao lado da minha. Eu juro que o cachorro está me lançando aquele olhar.


Lua franziu o cenho. Com certeza, Rachel não podia estar insinuando o que ela pensou ter entendido.


- Aquele olhar?


- Você sabe. Aquele olhar. Ele pode parecer um cachorro, mas aquele animal tem sexo na cabeça. Toda vez que eu passo, ele olha por baixo da minha saia. E você não vai querer saber o que ele fez com meus tênis de corrida. O cão é um pervertido.


- Está bem. - Lua interrompeu-a outra vez. Estava começando a suspeitar que não havia nada que pudesse fazer por Rachel e sua obsessão de que todos os machos no mundo estavam desesperados para possuí-la.


- Com certeza, nós falaremos sobre a paixão do chihuahua por você.


- Obrigada, doutora. Você é o máximo.


Rachel pegou a bolsa que estava no chão e saiu do consultório.


Lua esfregou a testa enquanto as palavras da paciente ecoavam em sua cabeça. Um chihuahua? Céus!


Pobre Rachel. Seguramente haveria uma forma de ajudá-la. Contudo, seria infinitamente melhor ter um chihuahua olhando sob a saia com lascívia do que um escravo sexual grego.


Continua...

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