#MaratonaParte4/10
– Não queria que a gelatina ficasse ainda menos palatável de
tanto esperar – disse Arthur atrás de mim, inclinando-se de novo por cima do
meu ombro, arrumando meus talheres na bandeja. Garfo à esquerda do sanduíche de
carne moída. Faca e colher à direita. – Esse é o modo americano também, não é?
– E o que você faz na
Romênia além de frequentar, tipo, a melhor escola de etiqueta do mundo? –
perguntou Mel enquanto Arthur se sentava. Ele se recostou na cadeira dobrável
de metal e esticou as pernas compridas pelo corredor, empurrando para o lado as
batatas fritas intocadas.
– Bom, minha formação
é bastante rigorosa, embora eu tenha tutores particulares. Quando sinto
vontade, desfruto de viagens a Bucareste e Viena. A caça é popular nos
Cárpatos. E também a equitação.
– Olha, você e Ro têm algo em comum! – exclamou Mel.
Lancei-lhe um olhar de reprovação. – Têm, sim! Arthur arqueou as sobrancelhas,
intrigado.
– Verdade, Roberta? Achei que toda a sua atividade equestre se
resumisse a limpar os estábulos – provocou ele. – Não fazia ideia de que era
familiarizada com a visão que se tem de cima de um cavalo. Por que guardou
segredo?
– Eu não queria você espreitando no estábulo, assustando
minha égua – respondi antes de dar uma mordida no sanduíche de carne moída
proibido.
– Ro vai saltar no
concurso do Clube da Juventude no outono – acrescentou Mel. Arthur sorriu em
sinal de aprovação.
– Sabe, sou conhecido como o melhor cavaleiro de minha
cidade natal, Sighişoara. Talvez possa ajudá-la a mon...
– Não! – exclamei,
mais alto do que pretendia. Baixei a voz. – Não preciso de ajuda, tá?
– Tem certeza? Fui
capitão da seleção amadora de polo da Romênia.
– Ah, qual é – gemi,
enfiando uma colherada de gelatina na boca. – Melhor pegar leve com a
sobremesa, Pacotão – gritou alguém. – Você já balança feito uma tigela cheia de
gelatina. Ah, não... Era o gorducho do Frank Dormand que, acompanhado por Faith
Crosse e Ethan Strausser, seu namorado atleta, passava gargalhando perto da
nossa mesa.
– Olha quem fala Dormand – alertei. – Pelo menos a minha
gordura não está toda dentro da cabeça. Mas eles já estavam se afastando, rindo
juntos.
– Inaceitável. – Arthur
se endireitou na cadeira, com incredulidade na voz. – Ele acabou de zombar de
você, Roberta? – perguntou, começando a se levantar.
– Arthur, deixa pra lá – falei, apertando seu braço. – Já
cuidei disso. Como sempre faço. Arthur me olhou com desconfiança.
– Devo permitir que aquele... Aquele... Quadrúpede zombe de
você? Segurei com força a manga de sua camisa, sentindo os músculos retesados,
mesmo através do tecido.
– É só Frank Dormand
bancando o panaca, como de costume – respondi. – Não comece uma briga por causa
disso. Por um momento Arthur pareceu esquecer Frank enquanto voltava a se
sentar, claramente perplexo, examinando meu rosto.
– Roberta, eu não
entendo. Logo você, suportar zombarias...
– Chega, Arthur – alertei, implorando em silêncio, encarando
seus olhos escuros. Por favor, não mencione vampiros, noivados nem nada sobre
eu ser uma princesa. Não com a Mel aqui. Nem agora nem nunca. – Sei como cuidar
disso. Arthur desistiu, embora com óbvia relutância.
– Como quiser. Mas só vou ceder uma vez. A atitude desses
imbecis com relação a você, Roberta, não ficará sem resposta de novo.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços, olhando a
porta pela qual Frank, Faith e Ethan haviam partido. Ele observava atentamente,
como se desejasse que os três voltassem para testá-lo. Parecia estar tramando,
criando estratégias, imaginando a briga. Seu olhar era tão frio e amedrontador
que até Mel ficou quieta, pela primeira vez na vida. Terminamos o almoço em
silêncio. Arthur não comeu nada, só tinha dado alguns goles no Morango Julius
de vez em quando, distraído, enquanto olhava para a porta. Quando saímos do
refeitório, ele jogou o copo vazio na lata de lixo.
– Espero que ele
arrebente a cara do Frank um dia desses – sussurrou Mel, esvaziando sua
bandeja. – Seria moleza. Arthur parecia pronto para matar por você.
Do jeito que Mel
falou, aquilo pareceu quase romântico. Mas eu também tinha visto a expressão de
Arthur e sentido sua raiva mal contida nos músculos tensos sob minha mão. Não,
a perspectiva de Arthur Vladescu me vingar por qualquer coisa não era nem um
pouco romântica. Pelo contrário, havia acabado de me encher de uma apreensão
que beirava o pavor. Quanto mais eu pensava na combinação Ethan, Frank, Faith, Arthur
e eu, mais eu tinha certeza de que era algo que só poderia terminar em
desastre.
Continua...

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