sábado, 2 de janeiro de 2016

Amante da fantasia - Cap.24


#maratonaparte7/10

Após vê-la sair, Arthur andou até as grandes janelas e afastou as cortinas de renda branca. Observou as estranhas coisas que pareciam caixas, que deveriam ser automóveis movendo-se diante da casa, e faziam esquisitos ruídos que iam e vinham como a maré.


Luzes iluminavam as ruas e outros edifícios por toda a parte, como as tochas haviam feito no passado em sua pátria. Como este mundo era esquisito... Tão estranhamente similar ao seu e, ainda assim, tão diferente.


Tentou associar o que via com todas as palavras que escutara ao longo de décadas, palavras que não compreendera antes, como TV e lâmpada. E, pela primeira vez desde a infância, sentiu medo.


Não gostava das mudanças que via, da velocidade com a qual haviam se estabelecido neste mundo. Como seria da próxima vez que fosse chamado? Quão diferentes as coisas ainda podiam se tornar? Ou, ainda mais apavorante, e se ele nunca mais fosse evocado?


Engoliu em seco ao pensar nisso. Como seria ficar preso pela eternidade? Sozinho e alerta. Sentir a escuridão opressiva ao seu redor, esmagando-o, arrancando o ar de seus pulmões e dilacerando seu corpo de dor.


Nunca mais andar como um homem? Nunca mais falar ou tocar? Aquelas pessoas agora tinham coisas chamadas computadores. Ele escutara a lojista falar a respeito deles com uma porção de clientes. E um deles dissera que um dia, provavelmente logo, eles substituiriam completamente os livros.


Então, o que aconteceria com ele?


Vestida com a larga e comprida camiseta cor-de-rosa que usava para dormir, Lua parou no quarto de seus pais ao lado da penteadeira, sobre a qual havia uma floreira de cristal onde ela colocara as alianças de casamento, no dia seguinte ao funeral.


Ela podia ver o cintilar do diamante navete de meio quilate. Com a garganta constringida pela dor, lutou contra as lágrimas que se formaram em seus olhos.


Na época com 24 anos, ela fora arrogante o suficiente para pensar que era adulta e capaz de enfrentar qualquer coisa que a vida pusesse em seu caminho. Achava-se invencível. E, em um segundo, sua vida desintegrara-se.


As mortes dos pais fez com que perdesse tudo o que tinha. Segurança, fé, senso de justiça, e, acima de tudo, ela perdera o amor devotado e o apoio emocional oferecido por eles.


A despeito de sua vaidade juvenil, não estava preparada para ficar à deriva, desorientada e sem família. E, mesmo já tendo se passado cinco anos, ela ainda chorava por eles. Profundamente.


O velho ditado de que era melhor ter conhecido o amor e tê-lo perdido era uma enorme tolice. Não havia nada pior do que ser amado e protegido para, então, perder as pessoas queridas em um acidente completamente desnecessário.


Incapaz de enfrentar as mortes de ambos, ela fechara o quarto no dia seguinte ao enterro e deixara tudo exatamente como era. Abrindo a gaveta onde ficavam os pijamas do pai, Lua engoliu em seco.


Ninguém os tocara desde a tarde em que sua mãe os havia dobrado, antes que, juntas, elas levassem as roupas para cima e as guardassem. Ela ainda se lembrava do riso da mãe. Da forma como ela brincara a respeito do gosto conservador de seu pai em relação aos pijamas de flanela.


Pior, lembrava-se do amor de um pelo outro. Ah, o que ela não daria para encontrar um companheiro perfeito, como acontecera com seus pais. Eles haviam sido casados por vinte e cinco anos antes de morrerem, e eram tão apaixonados quanto no dia em que se tinham conhecido.


Ela não se recordava de um momento na vida em que sua mãe não estivesse sorrindo enquanto seu pai gentilmente a provocava. Todos os lugares aonde iam, ficavam de mãos dadas, como adolescentes, e roubavam beijos rápidos quando achavam que ninguém estava olhando. Mas ela via. Ela se lembrava.


Desejara aquele tipo de amor. Porém, por algum motivo, nunca encontrara um homem que a deixasse sem fôlego. Ou que fizesse seu coração bater mais forte e perturbasse sua razão.


Um homem sem o qual não pudesse viver.


- Ah, mamãe... - ela sussurrou, desejando que seus pais não tivessem morrido naquela noite. Desejando...


Não sabia. Queria apenas algo em sua vida que a fizesse ansiar pelo futuro. Algo que a fizesse feliz, como seu pai sempre fizera sua mãe imensamente feliz.



 Continua...

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