#maratonaparte7/10
Após vê-la sair, Arthur andou até as grandes janelas e afastou as
cortinas de renda branca. Observou as estranhas coisas que pareciam caixas, que
deveriam ser automóveis movendo-se diante da casa, e faziam esquisitos ruídos
que iam e vinham como a maré.
Luzes iluminavam as ruas e outros edifícios por toda a parte, como as
tochas haviam feito no passado em sua pátria. Como este mundo era esquisito...
Tão estranhamente similar ao seu e, ainda assim, tão diferente.
Tentou associar o que via com todas as palavras que escutara ao longo de
décadas, palavras que não compreendera antes, como TV e lâmpada. E, pela
primeira vez desde a infância, sentiu medo.
Não gostava das mudanças que via, da velocidade com a qual haviam se
estabelecido neste mundo. Como seria da próxima vez que fosse chamado? Quão
diferentes as coisas ainda podiam se tornar? Ou, ainda mais apavorante, e se
ele nunca mais fosse evocado?
Engoliu em seco ao pensar nisso. Como seria ficar preso pela eternidade?
Sozinho e alerta. Sentir a escuridão opressiva ao seu redor, esmagando-o,
arrancando o ar de seus pulmões e dilacerando seu corpo de dor.
Nunca mais andar como um homem? Nunca mais falar ou tocar? Aquelas
pessoas agora tinham coisas chamadas computadores. Ele escutara a lojista falar
a respeito deles com uma porção de clientes. E um deles dissera que um dia,
provavelmente logo, eles substituiriam completamente os livros.
Então, o que aconteceria com ele?
Vestida com a larga e comprida camiseta cor-de-rosa que usava para
dormir, Lua parou no quarto de seus pais ao lado da penteadeira, sobre a qual
havia uma floreira de cristal onde ela colocara as alianças de casamento, no
dia seguinte ao funeral.
Ela podia ver o cintilar do diamante navete de meio quilate. Com a
garganta constringida pela dor, lutou contra as lágrimas que se formaram em
seus olhos.
Na época com 24 anos, ela fora arrogante o suficiente para pensar que
era adulta e capaz de enfrentar qualquer coisa que a vida pusesse em seu
caminho. Achava-se invencível. E, em um segundo, sua vida desintegrara-se.
As mortes dos pais fez com que perdesse tudo o que tinha. Segurança, fé,
senso de justiça, e, acima de tudo, ela perdera o amor devotado e o apoio
emocional oferecido por eles.
A despeito de sua vaidade juvenil, não estava preparada para ficar à
deriva, desorientada e sem família. E, mesmo já tendo se passado cinco anos,
ela ainda chorava por eles. Profundamente.
O velho ditado de que era melhor ter conhecido o amor e tê-lo perdido
era uma enorme tolice. Não havia nada pior do que ser amado e protegido para,
então, perder as pessoas queridas em um acidente completamente desnecessário.
Incapaz de enfrentar as mortes de ambos, ela fechara o quarto no dia
seguinte ao enterro e deixara tudo exatamente como era. Abrindo a gaveta onde
ficavam os pijamas do pai, Lua engoliu em seco.
Ninguém os tocara desde a tarde em que sua mãe os havia dobrado, antes
que, juntas, elas levassem as roupas para cima e as guardassem. Ela ainda se
lembrava do riso da mãe. Da forma como ela brincara a respeito do gosto
conservador de seu pai em relação aos pijamas de flanela.
Pior, lembrava-se do amor de um pelo outro. Ah, o que ela não daria para
encontrar um companheiro perfeito, como acontecera com seus pais. Eles haviam
sido casados por vinte e cinco anos antes de morrerem, e eram tão apaixonados
quanto no dia em que se tinham conhecido.
Ela não se recordava de um momento na vida em que sua mãe não estivesse
sorrindo enquanto seu pai gentilmente a provocava. Todos os lugares aonde iam,
ficavam de mãos dadas, como adolescentes, e roubavam beijos rápidos quando
achavam que ninguém estava olhando. Mas ela via. Ela se lembrava.
Desejara aquele tipo de amor. Porém, por algum motivo, nunca encontrara
um homem que a deixasse sem fôlego. Ou que fizesse seu coração bater mais forte
e perturbasse sua razão.
Um homem sem o qual não pudesse viver.
- Ah, mamãe... - ela sussurrou, desejando que seus pais não tivessem
morrido naquela noite. Desejando...
Não sabia. Queria apenas algo em sua vida que a fizesse ansiar pelo
futuro. Algo que a fizesse feliz, como seu pai sempre fizera sua mãe
imensamente feliz.
Continua...

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