sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 15



#MaratonaParte5/10

Caro Tio Vasile,
 Talvez a lentilha seja o alimento mais versátil e indestrutível do mundo. É possível comer lentilha sem adornos, casá-la com seu primo em primeiro grau, o rude “bulgur”, ou tentar afogá-la em vinagre para uma “salada vegana”. Mas, infelizmente, a lentilha sempre sobreviverá. De fato, no lar dos Packwood, a pequena e tenaz leguminosa ressuscitará à força, sempre livre de qualquer coisa que se assemelhe a sabor, e insinuará seu eu indomável, lenticular, em mais um prato da refeição, esperando ser consumida. De novo e de novo e de novo. E nem me fale de gelatina e de sanduíche de carne moída. Pelo Amor de Deus. Por quanto tempo mais devo suportar tudo isso no interesse da paz entre os clãs? Devo me sacrificar como o primeiro prisioneiro em uma guerra que ainda nem começou? Honestamente, Vasile, não se trata apenas da comida (ou do que os Packwood e o Departamento de Educação da Pensilvânia insistem em chamar de comida). As escolas de ensino médio dos Estados Unidos deveriam ser consideradas ilegais segundo as regras da Convenção de Genebra. As crueldades indescritíveis que suporto deixariam perplexo até o senhor, um especialista no assunto! Como sabe, sempre fui curioso a respeito de nossa imortalidade, sobre como será continuar a viver através dos anos (presumindo que evitemos a estaca, como pretendo fazer). Não preciso especular mais. Senti uma amostra da eternidade na aula de “estudos sociais” da Srta. Campbell, no quinto tempo de aula. Três dias sobre o conceito de “Destino Manifesto”, Vasile. Três Dias. Minha vontade era me levantar, arrancar as anotações de suas mãos pálidas e gritar: “Sim, os Estados Unidos se expandiram para o oeste! Isso não é lógico, dado que os europeus se estabeleceram na margem leste? O que mais eles poderiam fazer? Avançar inutilmente mar adentro?” Mas não devo reclamar. Não seria de bom-tom perder a compostura. Devo perseverar, lutando contra a tentação de apenas ficar com cara de bobo, como faz a maioria dos meus “pares” (em seus sonhos!), que mergulham em um estado de torpor coletivo, de vazio, parecido com um transe, e que dura o tempo de cada aula. (Se bem que às vezes invejo secretamente sua capacidade de esvaziar a mente por completo durante 50 minutos, reanimando-se apenas ao som de uma campainha, como os cães de Pavlov. E então, saem latindo e ganindo pelos corredores até que as aulas recomecem...) No entanto, sem dúvida, o senhor está mais intrigado com as notícias da corte do que com as de minha “educação”. Assim sendo, passarei a falar de meu progresso com Lua. Fico contente em informar que, às vezes, minha futura princesa demonstra sinais de possuir grande presença de espírito. Infelizmente, toda a considerável força de vontade de Lua, seu “pique” (para usar uma palavra daqui), se concentra em rejeitar a minha pessoa. Verdade seja dita: ela demonstra uma dedicação implacável a essa missão. Enquanto isso, tenho a sensação de que Lua sente uma atração indevida por um carregador de feno (um camponês! E baixinho, ainda por cima!) que tem aparência e postura tão pouco notáveis a ponto de, mesmo ocupando uma carteira perto da minha na aula de literatura inglesa (em grande medida assumi o papel de orientador nessa matéria – talvez eu ganhe uma “monitoria”!), eu nunca conseguir me lembrar de seu nome. Justin? Jason? (Infelizmente esses dois palpites são bons. Parece que temos um punhado de cada um deles aqui, na Woodrow Wilson.) O fato é que pareço ter “concorrência”, Vasile. Concorrência por parte de um camponês, cujas grosseiras estratégias para cortejá-la incluem aparecer na fazenda dos Packwood, desnecessariamente sem camisa, para contrair os músculos na frente dela! Exibindo-se como um faisão estufado! E se o senhor pudesse vê-la flertando com o palerma... Será que isso pesa contra Lua – ou contra mim, a quem ela despreza? E se os Dragomir desenvolveram uma queda por camponeses, não deveríamos deixar que sua linhagem se rebaixe naturalmente, em vez de nos unirmos a eles? Estou de pilhéria. Claro que vencerei. (Um Vladescu contra um trabalhador braçal... eu poderia ganhar Lua com uma das mãos amarrada às costas e talvez usando uma venda.) Mas toda a situação é desanimadora, para dizer o mínimo. Pensar que Lua considera flertar com um caipira quando um príncipe demonstra interesse... Quando um Vladescu demonstra interesse! Culpo as lentilhas. Pode-se esperar que um nobre acostumado com carne alcance o máximo de rendimento à base de grãos empapados? Recentemente me senti ainda mais desanimado ao testemunhar Lua sendo maltratada por um dos personagens mais tediosos da Escola Woodrow Wilson, um garoto com o nome infeliz de Frank Dormand. (Não é de espantar que ele seja a própria dormência!) Imagine só: um simplório insultando uma princesa vampira. Fiquei ali sentado, perplexo, incapaz de acreditar no que via e ouvia. Isso não acontecerá de novo. Estou ciente de que devo seguir as regras de conduta locais (infelizmente há sanções rígidas contra cabeças rolarem nas ruas por aqui), mas outro insulto vindo de um “Dormente” não será suportado. Minha futura esposa – ainda que com uma inclinação camponesa temporária – não precisará aceitar mais insubordinação. Não é apenas o insulto que me perturba, Vasile. Eu lhe pergunto: como Lua pode entender seu real valor sendo criada nessas circunstâncias? É surpreendente que pense em ser consorte de um roceiro? Se houvesse sido criada na Romênia, educada como uma governante, Lua jamais aceitaria um insulto vindo de um plebeu. Teria ordenado que o ofensor fosse executado como o vira-lata imundo que ele é. Aqui, tudo o que ela pôde fazer foi contra-atacar com sua sagacidade (grosseira, mas encorajadoramente cortante) – uma arma, sim, mas uma princesa deveria ter poder verdadeiro em suas mãos. Estou preocupado com isso, Vasile. Os governantes não nascem prontos, como sabe. São forjados. Lua não sabe nada sobre exercer o poder. O que isso significará para ela e para os clãs que comandará quando assumir o trono? Mas eis o ponto principal de minha missiva. O senhor poderia liberar, digamos, mais 23 mil lei – o equivalente a cerca de 10 mil dólares americanos – do meu dinheiro sob sua custódia? Estou interessado em uma pequena compra, relacionada, obviamente, à corte que faço a Lua. E pode ser que eu precise usar uma pequena parte para adquirir um módico estoque de carne vermelha. Desde já agradeço pela generosidade. Seu sobrinho, Lucius.

 P.S.: O treino de basquete começará logo. Talvez o senhor queira pegar um avião e assistir a um jogo. Acho que não.

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prometida a um Vampiro - Cap.71