#MaratonaParte1/10
– Nada muito inteligível. Mas devia ser
um sonho bem agradável. Você parecia em êxtase.
– Não fique espreitando perto do meu
quarto – ordenei. – Estou falando sério.
– Como quiser. – Arthur baixou o volume
de uma vitrola antiga, em que um disco de vinil empenado girava e gemia uma música
estranha, cheia de arranhados e guinchos, como gatos brigando. Ou como um caixão
com dobradiças enferrujadas se abrindo e se fechando repetidamente num mausoléu
deserto. – Gosta de música folclórica croata? – perguntou ele, vendo o meu
interesse. – Faz com que eu me lembre de casa.
– Prefiro música normal.
– Ah, sim, a sua MTV com todos os
bate-estacas e rebolados. Como uma dose de
hormônios adolescentes descontrolados
administrada pela televisão. Não me oponho. – Ele indicou uma poltrona que com
certeza não pertencia aos meus pais.
Eles não compravam nada de
couro.
–
Sente-se, por favor. Diga por que reivindicou esse encontro.
Sentei-me e a poltrona quase me
engoliu. Era supermacia.
– Arthur, você precisa parar de me
seguir. E precisa ir para casa.
– Você é direta. Gosto disso, Lu... Roberta.
– Eu já me decidi – continuei. – O “casamento”
está oficialmente cancelado. Não me
importa o que diz o pergaminho. Não me
importa o que os velhos do Velho País...
– Os Anciões.
–... O que os Anciões esperam. Isso não
vai acontecer. Estou dizendo agora para você não perder mais tempo. Tenho
certeza de que quer voltar para seu castelo.
Arthur balançou a cabeça.
– Não. Precisamos aprender a conviver, Roberta.
Não tenho opção quanto a isso, nem você. Assim, sugiro que pelo menos tente
cooperar comigo nessa questão.
– Não.
Arthur abriu um pequeno sorriso.
– Você tem mesmo vontade própria. – O
sorriso sumiu. – Este não é o momento para usa lá.
– Ele começou a andar de um lado para o
outro, como tinha feito na aula da Sra. Wilhelm.
– Não cumprir o pacto, além de resultar
numa crise política, desonraria a memória de nossos pais. Eles queriam isso, em
nome da paz.
Olhei para Arthur um pouco surpresa.
– O que aconteceu com seus pais?
– Foram destruídos no expurgo, como os
seus. O que você achava?
– Foi mal. Eu... Eu não sabia.
Arthur se sentou na cama, inclinando-se
para frente, entrelaçando os dedos.
– Mas, diferente, de você, Roberta, fui
criado dentro da nossa raça, com modelos de comportamento adequados.
–
Os tais Anciões?
Continua...

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