#MaratonaParte2/10
– É. Eles me entregaram aos meus tios.
E, se você os conhecesse como deveria, não teria esse tom de escárnio na voz. –
Ele uniu as palmas das mãos, claramente mascarando alguma frustração súbita. –
Eles são terríveis.
Franzi a testa.
– E morar com Anciões terríveis foi uma
coisa boa?
– Foi uma coisa adequada. Aprendi
disciplina. Honra. – Ele coçou o queixo. – Por meio da força, quando eles
achavam necessário.
Minha raiva contra ele foi esquecida.
– Quer dizer que seus tios batiam em você?
– Claro que batiam – respondeu Arthur
em tom casual. – Repetidamente. Eles estavam criando um guerreiro. Formando um
governante. Os reis não são criados com doces, abraços e beijos no colo da mamãe.
Os reis têm cicatrizes. Ninguém enxuga suas lágrimas quando você está sentado
num trono. É melhor não ser criado para esperar esse tipo de coisa.
– Isso... Isso é errado – protestei,
pensando nos meus pais, que não suportavam exterminar os cupins que estavam
comendo o estábulo, quanto mais bater numa criança. – Como eles puderam
machucar você?
Arthur fez pouco da minha compaixão.
– Não falei da disciplina rígida dos
Anciões para ganhar sua piedade. Eu era uma criança desobediente. Voluntariosa.
Difícil de controlar. Meus tios precisavam me preparar para a liderança. E foi
o que fizeram. – Ele olhou bem nos meus olhos. – Aprendi a aceitar meu destino.
Bufei. Estávamos de volta à estaca
zero.
– Arthur, isso não vai acontecer. A
seita, ou seja, lá o que for não tem nada a ver comigo. Não vou entrar nessa.
Ele se levantou e começou a andar de
novo, passando seus dedos compridos pelos cabelos pretos.
– Você não está escutando.
– Você é que não está escutando –
contra-ataquei.
Arthur esfregou os olhos.
– Desgraça! Você é de enfurecer. Eu
disse aos Anciões, há muito tempo, que era insanidade criá-la fora da nossa
cultura. Que você nunca seria uma noiva adequada. Uma princesa adequada. Mas
todo mundo, dos dois clãs, insistiu na ideia de que você era valiosa demais
para correr risco de vida dentro da Romênia...
– Eu não sou uma princesa!
– É sim – insistiu Arthur. – Você é uma
mulher inestimável. Da realeza. Se tivesse sido criada do modo certo, já teria
total consciência disso. Estaria pronta para governar. – Ele bateu com um dedo
no peito. – Governar ao meu lado. Mas, como está você continua sendo uma garota. – Ele quase cuspiu a
palavra. – Eu fui unido, por toda a eternidade, a uma criança!
Um pequeno tremor percorreu minha
coluna.
–
Você é pirado mesmo.
Continua...

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