#MaratonaParte2/10
– Amanhã você vai se virar sozinho, não importa o que mamãe diga sobre ajudá-lo a se adaptar – alertei Arthur, que estava me seguindo na fila do almoço, rescusando tudo o que lhe era oferecido. – Já sabe como as coisas funcionam.
– Ah, sim – disse ele, empurrando a bandeja com um dos
dedos, como se fosse um objeto tóxico. – Enfileire as pessoas como gado num
curral, apresente comida feita para gado e obrigue-as a consumi-la encurvadas,
ombro a ombro, em mesas que parecem comedouros para gado.
– Pega logo alguma coisa – gemi, escolhendo um sanduíche. –
Esse de carne moída não é ruim. Arthur segurou minha mão e seus dedos no meu
pulso eram fortes. E frios! – Roberta, isso é carne? Mas seus pais proíbem...
– O que mamãe e papai não sabem sobre a escola não vai fazer
mal a eles – expliquei, me desvencilhando de sua mão e empurrando a bandeja.
Esfreguei o pulso, esquentando-o. – Portanto não conte nada.
– Que ato insubordinado e rebelde de sua parte! – Arthur
sorriu, com apreciação na voz. – Aprovo totalmente.
– Numa boa, não estou nem aí para a sua aprovação.
– Claro que não. – Arthur deixou passar o sanduíche de carne
moída mas pegou algumas batatas fritas.
– Cartofi pai. Pelo menos isso nós temos na Romênia.
– Aliás, onde você arrumou essa bebida? – perguntei,
apontando para a sua bandeja, onde havia um enorme copo de plástico com a
logomarca MORANGO JULIUS. – A gente não tem permissão para sair da escola,
sabia?
– Ah, os terrores da detenção. – Arthur suspirou, levantando o copo
para beber pelo canudinho grosso. Um líquido vermelho, espesso, foi sugado. Ele
engoliu com satisfação. – Não o bastante para me afastar dos prazeres de um
“Morango Julius”. Acho que estou viciado.
– Você deveria jogar isso fora – falei, estendendo a mão
para o copo. – Sério, se for pego... Arthur puxou a bebida antes que eu pudesse
tocar nela.
– Acho melhor não. E aconselho você a não derramar isso. Olhei
para o seu rosto, sem saber o que ele queria dizer. Os olhos negros eram
maliciosos.
– Anda – ordenei, pegando um pouco de gelatina de limão. – Estamos
segurando a fila. Vamos pagar, se não quiser mais nada. Levamos as bandejas
para a caixa e, enquanto eu enfiava a mão nos bolsos, Arthur pegou sua carteira
e a abriu.
– Por minha conta.
– De jeito nenhum. – Encontrei alguns dólares embolados no
bolso, mas Arthur foi mais rápido. Entregou uma nota de 20 à mulher do
bandejão.
– Fique com o troco. – Ele sorriu para ela, dobrando a carteira e
pegando as duas bandejas.
– Mas... – Ela começou a protestar.
– Ele ainda não está acostumado com nosso dinheiro –
expliquei, me virando para Arthur. – Nosso almoço só custou, tipo, 6 dólares.
Arthur franziu a testa.
– Roberta, você acha que não estou familiarizado com o valor
de várias moedas do mundo, em especial o dólar americano, que é o padrão
universal? Eu moro na Romênia, não numa bolha.
A mulher do bandejão ainda estava segurando o troco, insegura.
– Eu dou a ele mais tarde – falei, aceitando o dinheiro.
– Olhe, ali está Melaine, acenando um tanto histericamente para
nós – observou Arthur, carregando nossas bandejas. – Ela é bem efusiva, não é?
– Pelo jeito você vai comer com a gente. Bufei, seguindo-o
enquanto ele deslizava pelo labirinto de mesas em direção a Mel. Alguns alunos
levantaram os olhos ou até mesmo se desviaram do caminho enquanto o adolescente
alto que vestia camisa branca muito engomada, calça preta e botas engraxadas ia
passando. Arthur não parecia nem um pouco incomodado com a atenção. Pelo
contrário: tive a sensação de que se achava merecedor de nada menos do que
isso.
Continua...

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