Estava inclinada sobre um flanco do navio, assim podia ver os botes de vela próximos, deslizando-se sobre a cristalina água azul, Lua não sabia o que estava mal com ela. Embora tenha dormido, mal podia manter os olhos abertos, e isso não era algo típico dela.
-Acredito que tenho narcolepsia. (1)
Sophia parou ao lado do Lua antes de olhá-la de cima abaixo.
-Possivelmente. Sabe que setenta por cento das pessoas com narcolepsia também sofrem ataques de catalepsia?(2)
Antes que Lua pudesse abrir a boca para lhe responder, Sophia rebateu sua própria teoria.
-Penso que você não é. Vi-te zangada muitas vezes para saber que esse adorável sintoma não lhe afeta. É obvio os narcolépsicos também têm frequentes alucinações tanto dormindo como acordados. E, é obvio sonambulismo. E eu sei que você não é sonâmbula. Começaste a ter alucinações ultimamente?
Sim, mas discutir sobre suas frequentes fantasias sexuais com uma adolescente de quinze anos não era algo que Lua tivesse intenção de fazer.
Lua a olhou com o sobrecenho franzido.
-Como sabe tanto sobre isso? Droga, Sophia, é uma menina. Age como uma. Antes que pudesse piscar, Sophia fechou a mão e lhe deu um murro no braço. Forte.
-OW!- Ela esfregou o bíceps onde Sophia lhe tinha golpeado. - E isso a que veio?
-Um estalo emocional inesperado e irracional. Não é algo que se supõe que fazem os adolescentes? Oh, e estar de mau humor. Muito mau humor.
Lua levantou as mãos em sinal de rendição.
-Bem. Faz do seu modo, Dra. Blanco.
Com uma expressão típica de sua idade, Sophia lhe lançou um sorriso zombeteiro antes de ir ajudar ao capitão com os botes que este estava amarrando com uma corda.
Sacudindo a cabeça, Lua se dirigiu às adegas para procurar Teddy e Scott, os quais estavam se queixando da presença da Mel em sua equipe enquanto eles trabalhavam... Algo que Lua não podia solucionar já que tinha prometido à mãe da Mel que a vigiaria neste verão. Aparentemente a pequena harpia tinha atacado Teddy por monopolizar muito tempo o Scott.
Lua esperava que passasse logo o aborrecimento deles. Tinha enviado sua prima à cidade para fazer compras enquanto eles se preparavam para zarpar rumo à área onde Lua acreditava que estava escondida Atlântida. A última coisa que precisavam era ter Mel em cima, queixando-se de tudo.
De todos os modos, Mel era louca por compras. O que ela mais gostava era dos objetos mais brilhantes. A tal ponto, que a garota usava uns chifres vermelhos do último Halloween, que estavam decorados com aros de diamante pendurados. Como cabia esperar, Mel estava vestida para comprar como um demônio.
Chay se tinha oferecido como voluntário para acompanhá-la e evitar que se metesse em problemas—o qual, conhecendo Mel, era um trabalho necessário. —Seriam afortunados, se ao final a levavam uns traficantes de escravas brancas ou a abduziam uns extraterrestres verdes.
Enquanto isso, Lua que estava muito cansada, não podia relaxar. A única coisa podia fazer era manter-se acordada.
-Lua. Volta para mim...
Um calafrio atravessou seu corpo, quando escutou a erótica voz em sua cabeça outra vez.
Pela extremidade do olho viu algo mover-se. Virou e aí na porta, sobre as escadas que levavam a coberta, estava Arthur. Vestido completamente de negro, estava de pé, de lado, com seus malvados olhos que prometiam uma longa noite de orgasmos, e um sedutor sorriso que a congelou no passadiço.
-Vêem, Lua. - Sua voz sussurrava como a de um fantasma, acariciou-a. Arrulhando-a.
Estendeu-lhe a mão...
Ela nunca tinha visto uma pose mais irresistível. Tudo o que ela queria era agarrar sua mão e que ele a tomasse nos braços como fazia em seus sonhos. Ela queria lhe despir e provar seu corpo perfeito.
Saborear esses provocadores lábios.
Sem pensá-lo, ela aproximou suas mãos para a dele. Tão perto que quase podiam tocar-se. Só faltava um pouco mais...
Mas não era real e ela sabia.
-Lua? Pode me passar minha régua?
Ela deu um salto para ouvir a voz do Teddy. Deixando cair sua mão, olhou para a direita e viu a régua sobre a mesa. Ela piscou antes de voltar a olhar para as escadas.
Estavam vazias, sem nenhum sinal de que Arthur estivesse esperando aí a que ela voltasse, e isso a decepcionou.
-Estou perdendo a cabeça.
Yeah, mas vá, que forma de perdê-la. Todo mundo deveria ter uma alucinação extremamente sexy.
Não querendo pensar nisso, ela agarrou a régua e a devolveu a Teddy, que a estava olhando com o cenho franzido pela preocupação. Apesar de que só era uns anos mais velho que ela, agia mais como um pai para ela que como um amigo ou um colega. Seu curto cabelo marrom estava sempre impecavelmente penteado, tinha uns joviais olhos marrons e um par de doces covinhas.
-Está bem?
-Cansada
Arranhou-se a cabeça perplexa ante sua resposta.
-Dormiu quatorze horas a noite passada.
Deu-lhe um tapinha no braço.
-Sei, mas ainda estou cansada.
-Possivelmente necessite um exame médico.
Mais precisamente um exame mental. Ela apartou esse pensamento a um lado e lhe sorriu. -Estarei bem. De verdade.
Ou o estaria se pudesse deixar de ter essas estranhas ilusões. Ainda agora ela se sentia como se alguém a estivesse olhando...
Thur quis amaldiçoar de frustração quando viu a Lua sorrir a outro homem. Por que não tinha sucumbido a seu soro? Às suas súplicas?
Como podia uma simples mortal ser tão forte?
-Arthur?
(1) Narcolepsia é uma condição neurológica caracterizada por episódios irresistíveis de sono e em geral distúrbio do sono. É um tipo de dissonia.
(2) Catalepsia patológica é uma doença rara em que os membros se tornam moles, mas não há contrações, embora os músculos se apresentem mais ou menos rijos, e quem passa por ela pode ficar horas nesta situação. A catalepsia patológica ocorre em determinadas doenças nervosas, debilidade mental, histeria, intoxicação e alcoolismo. No passado já existiram casos de pessoas que foram enterradas vivas e na verdade estavam passando pela catalepsia patológica.
Continua...

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