sábado, 2 de janeiro de 2016

Amante da fantasia - Cap.19


#naratonaparte2/10




Ela ficou tensa ante as palavras, pensando em que sentido tomar uma mulher poderia levar um homem a ser preso pela eternidade.


- Você estuprou uma virgem?


- Eu não a estuprei. - ele respondeu, encarando-a com um olhar duro. - Foi com consentimento mútuo, eu lhe asseguro.


Certo, aquela era uma questão sensível. Lua via isso claramente na frieza dele.


O homem não gostava de falar sobre o passado. Ela precisaria ser um pouco mais sutil em seu questionamento.


Arthur escutou o estranho sino badalar, antes que Lua pressionasse uma barra e abrisse a caixa preta onde colocara sua refeição. Ela pôs a tigela de comida que emitia vapor diante dele, junto com um garfo e uma faca de prata, guardanapo de papel e um cálice de vinho.


O aroma quente atingiu-lhe o cérebro, fazendo o estômago dele doer de fome. Supôs que ele deveria chocar-se com o modo e a velocidade com que ela cozinhara, mas, após ouvir falar de coisas chamadas trem, câmera, automóvel, toca-discos, foguete e computador, ela duvidava que algo mais pudesse surpreendê-lo.


Na verdade, não havia nada mais para sentir, uma vez que, por necessidade, ele banira suas emoções há muito tempo.


Sua existência nada mais era do que fragmentos de dias encadeados ao longo de séculos. Seu único propósito era servir às necessidades sexuais de quem o evocava. E algo que tinha aprendido nos últimos dois milênios era aproveitar os poucos prazeres aos quais tinha acesso durante cada encarnação.


Pensando nisso, levou um bocado de comida à boca e saboreou a deliciosa sensação do macarrão quente e cremoso em sua língua. Era puro êxtase.


Permitiu que o aroma do frango e dos condimentos o invadisse totalmente. Fazia uma eternidade desde que comera pela última vez. Uma eternidade de fome constante.


Fechando os olhos, ele engoliu. Mais acostumado à fome do que à alimentação, seu estômago contraiu-se dolorosamente em reação ao primeiro pedaço de comida.


Arthur apertou a faca e o garfo, enquanto lutava contra a dor brutal. Porém, não parou de comer. Não pararia enquanto tivesse comida. Aguardara tanto tempo para finalmente saciar a fome, e ele não se deteria agora.


Após mais algumas mordidas, as cólicas diminuíram, permitindo que ele apreciasse a refeição. E, ao sentir as dores se esvaírem, precisou de toda a força de vontade para comer como um ser humano, impedindo-se de enfiar a comida na boca com as mãos, em uma necessidade desesperada de debelar a corrosiva fome em seu ventre.


Em momentos como este, era difícil lembrar-se de que ainda era um homem, e não um animal selvagem e inquieto recentemente solto da jaula. Ele perdera a maior parte de sua humanidade séculos atrás, mas pretendia manter o pouco que restara.


Lua inclinou-se sobre o balcão, observando-o alimentar-se devagar, quase mecanicamente. Não sabia dizer se ele estava apreciando a comida, porém, ele continuava comendo.


O que a surpreendia eram os modos perfeitos à mesa. Nunca conseguira comer daquela maneira, e imaginou quando ele aprendera a usar a faca para equilibrar o macarrão no dorso do garfo antes de levá-lo à boca.


- Eles tinham garfos na antiga Macedônia? - ela indagou. Ele parou.


- Como?


- Eu estava apenas imaginando quando o garfo foi inventado. Eles já os tinham em...


Você está divagando! , sua mente gritou.


Bem, quem não faria isso? Olhe para o sujeito. Quantas vezes você acha que alguém agiu como uma idiota e fez uma estátua grega ganhar vida? Especialmente uma estátua com aquela aparência! Não com frequência.


- Acho que o garfo foi inventado em algum momento do século XV.


- É mesmo? - perguntou Lua. - Você estava lá?


Inexpressivo, ele ergueu o olhar e indagou:


- Na invenção do garfo ou no século XV?


- No século XV, é claro. - Então, pensando melhor, ela acrescentou: - Você não estava lá quando o garfo foi inventado, estava?


- Não. - Ele pigarreou e limpou a boca com o guardanapo. - Fui evocado quatro vezes durante aquele século. Duas na Itália, uma na Inglaterra e uma na França.


- É mesmo? - Ela tentou imaginar como as coisas teriam sido naquela época. - Aposto que você viu muitas coisas ao longo dos séculos.


- Na verdade, não.


- Ah, vamos lá, em dois mil anos...


- Eu vi principalmente quartos, camas e closets.



Continua...

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