#MaratonaParte8/10
Caro tio Vasile,
Escrevo para agradecer por ter liberado o dinheiro,
como pedi, e por ter mandado tão rapidamente minha coleção de armas e móveis
variados, tapetes, etc. Não poderia suportar mais um dia com aqueles bonecos de
olhos arregalados me espiando de cada canto feliz deste quarto forrado de
xadrez. Era como estar cercado por um exército multicultural de anões, todos
esperando para me atacar à noite, enquanto eu dormia.
Fiz aos Packwood o favor de me livrar de toda a coleção,
com a ajuda da marreta medieval que o senhor teve a gentileza de incluir na
remesa. Um par de saleiro e pimenteiro em formato de cães com chapéus de chef
de cozinha também encontrou seu destino. Um dia, sem dúvida, os Packwood vão
recuperar o bom senso e me agradecer.
Vamos às más notícias. Acho que dei um pequeno
passo em falso, tendo apresentado Lua ao conceito da transformação vampírica um
tanto abruptamente ontem à noite.A reação dela foi de puro medo, seguido de negação.
Imagine, Vasile, que ela descartou minhas presas como sendo algum tipo de
truque barato. Acredita nisso? Uma das metamorfoses mais impressionantes da
natureza sendo descartada como um ato de magia? Meu Deus, essa garota me cansa.
Tão resistente. Tão racional.
Resumindo: nenhum passo adiante e dois passos para
trás. Aceito de bom grado a culpa pelo erro (deveria ter previsto a reação de Lua
– minha psicologia não foi nada sutil), mas eu não antecipara toda essa
dificuldade anos atrás? Acordado neste quarto sobre a garagem, pondero
frequentemente sobre como as coisas
poderiam ter sido diferentes se Lua houvesse sido
criada como uma verdadeira vampira. Não quero parecer arrogante, Vasile, mas
sei, por experiências passadas, que não
sou
repugnante às mulheres. (A temporada de debutantes em Bucareste está acontecendo?
Ai, ai... boas lembranças...) E Lua, apesar de todos os defeitos (as camisetas
estão no topo da lista)... Bom, às vezes consigo ter vislumbres de quem ela poderia
ter sido. Do que nós poderíamos
ter sido. De fato, a qualidade mais incômoda de Lua – sua força de vontade, já
mencionada – é a mesma que lhe serviria tão bem como governante. Ela me enfrenta, Vasile. Quantas
estariam dispostas a isso? Há grande inteligência
em seus olhos também. E certo riso zombeteiro – marca registrada de nossa espécie.
Além disso, é linda, Vasile. Ou seria, se não tentasse com tanto empenho
esconder isso. Se ao menos acreditasse que é
linda.
Às vezes não é difícil imaginar Lua no nosso
castelo, ao meu lado – desde que cultivasse modos melhores, aceitasse o
conceito de roupas femininas e
endireitasse as costas. (Ninguém nos Estados Unidos demonstra o menor interesse
pela postura. Ficar
ereto parece uma espécie de arte perdida, como a
esgrima.)Na realidade desejada que às vezes visualizo, nosso namoro consiste em
excursões à ópera em Viena, cavalgadas nos Cárpatos (ela sabe cavalgar!) e
conversas enquanto nos demoramos em refeições que de fato consistam de comida. É como sempre abordei – e
com sucesso – o belo sexo na Romênia. Mas, claro,
meus devaneios e desejos são desperdiçados, exercícios fúteis que podem divertir
com mais eficácia do que os programas de televisão disponíveis (um canal todo dedicado
ao jogo de “pôquer” – preciso dizer mais?), embora nada possam fazer para alterar
a realidade. Nenhuma reação horrorizada de minha parte mudará o fato de que
Lua é uma garota americana que aparentemente exige
uma abordagem americana.
Agora, devo determinar o que isso significa. Alguma
atividade envolvendo “hambúrguer e fritas”, sem dúvida.
Para concluir, esta é a situação aqui em “nossa
pequena democracia”, como minha falsa figura paterna, Ned, gosta tanto de
chamar esta fazenda ridícula onde nenhum tipo de agricultura é praticado.
Francamente, se algum lugar já precisou da mão firme de um tirano... Menos
animais no pátio, mais no forno: esse seria o meu
primeiro
decreto. Mas,de novo, desejos não mudam nada.
Seu sobrinho,
Arthur
P.S.: Correndo o risco de testar sua paciência,
tenho mais um pedido. Quase esgotei meu suprimento de tipo A. (O treino de
basquete me deixa com sede. Vamos nessa, time!) O senhor conhece alguma boa
fonte doméstica que eu possa usar?

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