#maratonaparte6/10
- Eu estou descansando desde 1895. - ele explicou. - Não tenho certeza
de quanto tempo faz, mas, pela aparência das coisas, faz bastante tempo.
- Estamos em 2002. - Lua informou-o. - Você está dormindo há cento e
sete anos.
Não, ela se corrigiu. Ele não estivera adormecido.
Arthur havia lhe contado que podia escutar tudo o que era dito perto do
livro, o que significava que ele estivera acordado e trancado todo aquele
tempo. Isolado. Sozinho.
Ela era a primeira pessoa em mais de cem anos com quem ele podia falar
ou estar. Seu estômago se contraiu em solidariedade. Ainda que a prisão
representada por sua timidez não fosse tangível, ela sabia como era estar em
algum lugar escutando as pessoas e não fazer parte do grupo.
Permanecer do lado de fora, olhando para dentro.
- Eu gostaria de ficar acordada. - disse, suprimindo um bocejo. - De
verdade. Porém, se eu não durmo o suficiente, meu cérebro vira gelatina e eu
não consigo pensar direito.
- Entendo.
Notando o desapontamento dele, Lua sugeriu:
- Você poderia assistir TV.
- TV?
Ela pegou a tigela vazia e lavou-a antes de conduzi-lo de volta à sala
de estar. Ligando o aparelho, mostrou-lhe como mudar de canal com o controle
remoto.
- Incrível. - ele sussurrou, zapeando pela primeira vez.
- É legal mesmo.
Aquilo deveria mantê-lo ocupado. Afinal, homens precisavam de apenas
três coisas para serem felizes: comida, sexo e um controle remoto. Duas dessas
três coisas iriam satisfazê-lo por algum tempo.
- Bem - ela falou, dirigindo-se à escada -, boa-noite.
Quando passou por ele, sentiu que ele a tocava no braço. Mesmo sendo um
toque leve, provocou um arrepio em seu corpo. Ele manteve a expressão
impassível, mas emoções intensas chamejavam nos olhos verdes.
Lua viu o suplício, o anseio e, acima de tudo, a solidão. Ele não queria
que ela fosse embora.
Lambendo o lábio subitamente ressecado, ela disse algo inacreditável:
- Tenho outra TV no meu quarto. Por que você não assiste lá enquanto eu
durmo?
Ele lhe deu um sorriso encabulado. Arthur seguiu-a escada acima, pasmo
com o fato de ela tê-lo compreendido sem palavras.
De ela ter considerado sua necessidade de não estar sozinho, mesmo tendo
as próprias preocupações. Isso o fazia sentir-se estranho em relação a ela.
Provocava uma sensação esquisita em seu íntimo. Seria ternura? Não sabia ao
certo.
Lua levou-o até um enorme dormitório, com uma grande cama com quatro
colunas disposta no centro de uma das paredes. Uma cômoda de tamanho médio ficava
diante da cama e, sobre o móvel, havia, como ela chamara, uma TV?
Lua observou-o andar pelo quarto, olhando as fotos nas paredes, e, sobre
a penteadeira, fotos de seus pais e avós, dela e de Mel na faculdade e do cão
que tivera quando criança.
- Você vive sozinha? - ele indagou.
- Sim. - respondeu, aproximando-se da cadeira de balanço ao lado da
cama, em cujo encosto sua camisola estava pendurada.
Pegando-a, ela o fitou. Arthur ainda tinha a toalha verde enrolada nos
quadris delgados. Não podia deixá-lo juntar-se a ela na cama daquele jeito.
Claro que pode.
Não, eu não posso.
Por favor?
Quieta, Lua deixe-me pensar.
Ela ainda guardava o pijama do pai no quarto de seus pais, onde
conservava tudo o que lhes pertencera. Dada à largura dos ombros de Arthur, a
parte de cima nunca serviria, mas as calças tinham cordões e, mesmo que não
servissem no comprimento, ao menos o cobririam.
- Espere aqui. - falou. - Volto logo.
Continua...

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