sábado, 2 de janeiro de 2016

Amante da fantasia - Cap. 23


#maratonaparte6/10

- Eu estou descansando desde 1895. - ele explicou. - Não tenho certeza de quanto tempo faz, mas, pela aparência das coisas, faz bastante tempo.


- Estamos em 2002. - Lua informou-o. - Você está dormindo há cento e sete anos.


Não, ela se corrigiu. Ele não estivera adormecido.


Arthur havia lhe contado que podia escutar tudo o que era dito perto do livro, o que significava que ele estivera acordado e trancado todo aquele tempo. Isolado. Sozinho.


Ela era a primeira pessoa em mais de cem anos com quem ele podia falar ou estar. Seu estômago se contraiu em solidariedade. Ainda que a prisão representada por sua timidez não fosse tangível, ela sabia como era estar em algum lugar escutando as pessoas e não fazer parte do grupo.


Permanecer do lado de fora, olhando para dentro.


- Eu gostaria de ficar acordada. - disse, suprimindo um bocejo. - De verdade. Porém, se eu não durmo o suficiente, meu cérebro vira gelatina e eu não consigo pensar direito.


- Entendo.


Notando o desapontamento dele, Lua sugeriu:


- Você poderia assistir TV.


- TV?


Ela pegou a tigela vazia e lavou-a antes de conduzi-lo de volta à sala de estar. Ligando o aparelho, mostrou-lhe como mudar de canal com o controle remoto.


- Incrível. - ele sussurrou, zapeando pela primeira vez.


- É legal mesmo.


Aquilo deveria mantê-lo ocupado. Afinal, homens precisavam de apenas três coisas para serem felizes: comida, sexo e um controle remoto. Duas dessas três coisas iriam satisfazê-lo por algum tempo.


- Bem - ela falou, dirigindo-se à escada -, boa-noite.


Quando passou por ele, sentiu que ele a tocava no braço. Mesmo sendo um toque leve, provocou um arrepio em seu corpo. Ele manteve a expressão impassível, mas emoções intensas chamejavam nos olhos verdes.


Lua viu o suplício, o anseio e, acima de tudo, a solidão. Ele não queria que ela fosse embora.


Lambendo o lábio subitamente ressecado, ela disse algo inacreditável:


- Tenho outra TV no meu quarto. Por que você não assiste lá enquanto eu durmo?


Ele lhe deu um sorriso encabulado. Arthur seguiu-a escada acima, pasmo com o fato de ela tê-lo compreendido sem palavras.


De ela ter considerado sua necessidade de não estar sozinho, mesmo tendo as próprias preocupações. Isso o fazia sentir-se estranho em relação a ela. Provocava uma sensação esquisita em seu íntimo. Seria ternura? Não sabia ao certo.


Lua levou-o até um enorme dormitório, com uma grande cama com quatro colunas disposta no centro de uma das paredes. Uma cômoda de tamanho médio ficava diante da cama e, sobre o móvel, havia, como ela chamara, uma TV?


Lua observou-o andar pelo quarto, olhando as fotos nas paredes, e, sobre a penteadeira, fotos de seus pais e avós, dela e de Mel na faculdade e do cão que tivera quando criança.


- Você vive sozinha? - ele indagou.


- Sim. - respondeu, aproximando-se da cadeira de balanço ao lado da cama, em cujo encosto sua camisola estava pendurada.


Pegando-a, ela o fitou. Arthur ainda tinha a toalha verde enrolada nos quadris delgados. Não podia deixá-lo juntar-se a ela na cama daquele jeito.


Claro que pode.


Não, eu não posso.


Por favor?


Quieta, Lua deixe-me pensar.


Ela ainda guardava o pijama do pai no quarto de seus pais, onde conservava tudo o que lhes pertencera. Dada à largura dos ombros de Arthur, a parte de cima nunca serviria, mas as calças tinham cordões e, mesmo que não servissem no comprimento, ao menos o cobririam.


- Espere aqui. - falou. - Volto logo.


Continua...

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