quinta-feira, 30 de março de 2017

A Bela e A Fera - Cap. 7



O doce aroma de algo assando espalhava-se pela casa, mesclando-se ao som de risadas. Aquilo o atraiu, embora descesse pela antiga escada de serviço, para não ser visto. Passagens escondidas atrás das paredes formavam um labirinto, através do qual podia mover-se sem ser visto, apesar de os corredores serem bem estreitos. Fazia muito tempo que não passava por lá, depois de tê-los descoberto. Não gostava da sensação de passar por eles, mas havia pessoas na casa, depois de anos em que ele e Micael haviam sido os únicos moradores. Mas agora ela estava ali, assando algo na cozinha. A vontade de vê-la o atraía tanto quanto o aroma do que assava no forno. Mas, acima de tudo, era a risada límpida e espontânea que o atraíra. Podia distingui-la facilmente no meio das outras vozes. Havia algo em Lua Blanco que lhe despertava sensações que julgara adormecidas. Ela o desafiava, provocava, mas Arthur sabia que, se cedesse à tentação de ver o rosto dela, teria muito a perder. A filha precisava de Lua, uma vez que ele não podia ficar com ela.


Parando no fim do corredor escuro, afastou um pouco o painel disfarçado que cobria a parede. Ela estava tirando uma assadeira do forno e colocando biscoitos num prato. Era uma cena tão doméstica, comum, algo que Melanie nunca se incomodara em fazer, que o pegou de surpresa. Havia três pessoas sentadas nos bancos altos. Lua ofereceu os biscoitos aos convidados. Convidados, ali, na casa dele. Pela primeira vez. Queria ficar zangado. Queria que fossem embora, pela simples razão de que não podia unir-se a eles. E ao vê-la conversando, tão animada, seu isolamento parecia ainda mais difícil e amargo.


Mas ela era tão linda, os homens pareciam fascinados pelo que dizia. E então, quando Lua inclinou-se para colocar outra assadeira no forno, Arthur percebeu que todos olhavam as formas do corpo bem-feito. Será que os homens estavam ali movidos pela curiosidade em relação ã casa, ou apenas por causa dela?


— É uma casa muito grande — disse o adolescente, que ele reconheceu como o entregador que trazia as compras.


— Sim, é enorme — respondeu ela, colocando colheradas de massa na forma.


— Apavorante — disse um dos homens, olhando ao redor.


— Adoro a casa — afirmou Lua. — É linda, charmosa. A arquitetura, as pedras, tudo lembra a história de muitas partes do mundo.


Era exatamente o que sentira ao ver a casa, pensou Arthur, inclinando-se para ouvir melhor.


— Você já o viu?


— É claro.


— É muito horrível?


Arthur esperou pela resposta, prendendo a respiração.


— Não tem nada de mais.


Nada de mentiras, nem de informações, e ele imaginou por que Lua estaria agindo assim.


— Então por que se esconde?


— Ele é um homem reservado, e talvez por não ter sido bem recebido... — Lua parou de arrumar os biscoitos e virou-se, fitando-os por cima do ombro. Arthur percebeu a determinação na voz dela. — E se alguém ousar fazer qualquer comentário na frente da filha dele, terei que mostrar como meu avô me ensinou a atirar muito bem. E também como tirar a pele dos animais que caçávamos. Arthur disfarçou uma risada, e quando olhou novamente, os convidados riam, sem jeito, não muito certos se ela falava a sério ou não. Logo se despediam, agradecendo pelo café.

Lua acompanhou-os, fechando a porta assim que saíram. Voltando para o balcão, pegou a forma que acabara de encher e colocou-a no forno, no lugar da que já estava pronta. Não conhecia nenhuma criança que não gostasse de biscoitos de chocolate, e esperava que Sofia não fosse uma exceção. Queria que a menina se sentisse bem-vinda naquela casa escura e silenciosa. De repente, percebeu que não estava sozinha e ergueu o olhar. Então o viu, uma sombra escura entre a parede do canto e a porta entreaberta da despensa.


Uma sombra grande, larga, da qual só podia ver o jeans surrado que cobria as pernas fortes. Como chegara até ali sem que o visse?


— Gostaria de pensar que a receita de biscoitos da minha avó o atraiu até aqui, mas não tenho ilusões.


— Linda e esperta.


Lua enrijeceu de imediato. Será que todos tinham que falar de sua beleza, nos primeiros dez minutos de conversa?


— Quer um biscoito?


— Não, obrigado.


— Não diga que é uma dessas pessoas que não gosta de biscoitos de chocolate...


— Não.


— Já sei. Não quer vir até a luz para pegá-lo, não é?

Ele não respondeu.


— O que mais nega a si mesmo, ao escolher viver no escuro? — Ao falar, ela atirou um biscoito na direção dele.


A mão surgiu na luz, apanhando o biscoito no ar, e ela pôde ver o anel de sinete faiscar.


— E o que vai negar a Sofia?

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prometida a um Vampiro - Cap.71