quarta-feira, 15 de março de 2017

Prometida a um vampiro - Cap.57


 Meu peito arfou de novo. Eu estava apavorada. Se meus pais fossem tentar algum tipo de “cura natural” em Arthur seriam mais sem-noção do que eu pensava. Tudo isso passou pela minha cabeça enquanto eu seguia a pé atrás da velha Kombi, olhando desamparada o veículo sacolejar pela área gramada e pelo estacionamento de cascalho, o mais rápido que papai conseguia dirigir sem, aparentemente, levantar suspeitas ou sacudir muito Arthur.

Eu ainda estava ali, parada, olhando uma nuvem de poeira que se afastava, quando Faith reapareceu ao meu lado, mais recomposta. Seus olhos estavam vermelhos, mas os ombros haviam voltado a ficar alinhados. Mesmo assim sua voz ficou um pouquinho embargada quando perguntou:

– Você acha que ele... vai ficar...?

– Ele vai ficar bem – prometi, mentindo com mais facilidade do que achava possível. Precisava soar convincente. A sobrevivência da minha família, não somente a de Arthur, estava em jogo. – Acho que os ferimentos não foram tão ruins como pareceram de início.

– Não? Faith me lançou um olhar cético. Mas também era um olhar de esperança. Percebi que ela preferia acreditar na mentira. Afinal, não queria ser responsável pelos ferimentos de Arthur, muito menos por sua morte.

 – Ele se sentou um pouco – contei, obrigando-me a encarar os olhos azuis de Faith. – E fez uma piada.

 A tensão no rosto de Faith se aliviou e eu soube que ela havia se obrigado a acreditar no que eu disse. Estava desesperada demais por ser absolvida.

– Deve ter parecido tão ruim porque aconteceu rápido demais.

 – É, provavelmente – concordei. – Foi apavorante mesmo.

O olhar de Faith se desviou na direção do estacionamento, como se ainda esperasse ver a Kombi se afastar. Então notei que ela continuava com o chicote nas mãos, batendo-o distraída na bota. Eu teria jogado aquela coisa no lixo. Como é que ela não havia enxergado a placa no estábulo? A resposta era tão óbvia que chegava a ser ridícula. Faith Crosse não via nada além de sua pequena esfera de interesse. Simples assim.

– Mesmo não estando tão ruim quanto a gente pensava, por que ele não quis que eu chamasse os médicos? – perguntou ela, pensativa.

Eu também não tinha certeza, mas fiquei com a sensação de que teria a ver com as ilusões de Arthur sobre ser um vampiro. Mas essa definitivamente não era uma resposta adequada para Faith, por isso sugeri:

– Acho que ele é orgulhoso demais. Corajoso demais para ser carregado ao som de sirenes e com pessoas olhando. Na verdade, conhecendo Arthur, isso também poderia ser verdade. Faith sorriu um pouco, ainda olhando a distância. O chicote batia a um ritmo constante em sua bota. Estava calma agora, quase relaxada.

 – É – disse ela, mais para si mesma do que para mim.

 – Arthur Aguiar parece não ter medo de nada. E ele sabe mesmo o que quer, não é?

Você não faz ideia, senti vontade de dizer. Nesse instante, porém, um bando de juízes da competição marchava em direção a nós duas. Eu me virei para encará-los, pronta para contar mais mentiras.

Continua...


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