Meu peito arfou de novo. Eu estava apavorada.
Se meus pais fossem tentar algum tipo de “cura natural” em Arthur seriam mais
sem-noção do que eu pensava. Tudo isso passou pela minha cabeça enquanto eu
seguia a pé atrás da velha Kombi, olhando desamparada o veículo sacolejar pela
área gramada e pelo estacionamento de cascalho, o mais rápido que papai
conseguia dirigir sem, aparentemente, levantar suspeitas ou sacudir muito Arthur.
Eu ainda estava ali, parada, olhando uma nuvem de poeira
que se afastava, quando Faith reapareceu ao meu lado, mais recomposta. Seus
olhos estavam vermelhos, mas os ombros haviam voltado a ficar alinhados. Mesmo
assim sua voz ficou um pouquinho embargada quando perguntou:
– Você acha que ele... vai ficar...?
– Ele vai ficar bem – prometi, mentindo com mais
facilidade do que achava possível. Precisava soar convincente. A sobrevivência
da minha família, não somente a de Arthur, estava em jogo. – Acho que os
ferimentos não foram tão ruins como pareceram de início.
– Não? Faith me lançou um olhar cético. Mas também era um
olhar de esperança. Percebi que ela preferia acreditar na mentira. Afinal, não
queria ser responsável pelos ferimentos de Arthur, muito menos por sua morte.
– Ele se sentou um
pouco – contei, obrigando-me a encarar os olhos azuis de Faith. – E fez uma
piada.
A tensão no rosto
de Faith se aliviou e eu soube que ela havia se obrigado a acreditar no que eu
disse. Estava desesperada demais por ser absolvida.
– Deve ter parecido tão ruim porque aconteceu rápido
demais.
– É, provavelmente
– concordei. – Foi apavorante mesmo.
O olhar de Faith se desviou na direção do estacionamento,
como se ainda esperasse ver a Kombi se afastar. Então notei que ela continuava
com o chicote nas mãos, batendo-o distraída na bota. Eu teria jogado aquela
coisa no lixo. Como é que ela não havia enxergado a placa no estábulo? A resposta
era tão óbvia que chegava a ser ridícula. Faith Crosse não via nada além de sua
pequena esfera de interesse. Simples assim.
– Mesmo não estando tão ruim quanto a gente pensava, por
que ele não quis que eu chamasse os médicos? – perguntou ela, pensativa.
Eu também não tinha certeza, mas fiquei com a sensação de
que teria a ver com as ilusões de Arthur sobre ser um vampiro. Mas essa
definitivamente não era uma resposta adequada para Faith, por isso sugeri:
– Acho que ele é orgulhoso demais. Corajoso demais para
ser carregado ao som de sirenes e com pessoas olhando. Na verdade, conhecendo Arthur,
isso também poderia ser verdade. Faith sorriu um pouco, ainda olhando a
distância. O chicote batia a um ritmo constante em sua bota. Estava calma
agora, quase relaxada.
– É – disse ela,
mais para si mesma do que para mim.
– Arthur Aguiar
parece não ter medo de nada. E ele sabe mesmo o que quer, não é?
Você não faz ideia, senti vontade de dizer. Nesse
instante, porém, um bando de juízes da competição marchava em direção a nós
duas. Eu me virei para encará-los, pronta para contar mais mentiras.
Continua...

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