domingo, 19 de março de 2017

Prometida a um vampiro - Cap. 61


Fechei os olhos, incrédula. Balançando a cabeça, tentei pensar direito, expulsar a imagem do que achava ter visto.
Havia um cheiro, também. Um odor pungente que eu nunca tinha sentido. Bem, eu tinha sentido de leve antes, mas agora... agora era forte demais. E estava ficando mais forte ainda.
Abri os olhos e me obriguei a olhar de novo. Eu não percebia aquele aroma com o nariz. Eu o sentia, em algum lugar fundo, na boca do estômago ou nos recônditos daquela parte primitiva do cérebro que estudamos na aula de biologia. A área que controla o sexo, a agressividade e... O prazer?
Arthur se empertigou mais um pouco, sustentando-se num dos cotovelos, ainda bebendo com volúpia, como se não conseguisse se fartar. Mas logo não restava mais nada. O saco estava vazio. Arthur então tombou de volta com um gemido que, de algum modo, conseguiu revelar uma agonia crua e pura satisfação. Papai segurou seus ombros nus bem a tempo.
– Descanse, Arthur – insistiu papai.
Mamãe limpou com um pano o peito dele, onde o sangue tinha se derramado.
Sangue. Ele estava bebendo sangue.
Fechei os olhos de novo, dessa vez com mais força. Então aconteceu uma coisa estranha, porque eu estava agachada num chão sólido, de madeira, que teoricamente não podia se mexer, mas que começou a balançar e girar sob meus pés. Toda a casa oscilava ao meu redor e, mesmo quando abri os olhos, tentando me orientar, senti que eles giravam por vontade própria na direção do teto, que foi desbotando como uma tela de cinema quando o filme acaba.
Acordei mais tarde, naquela mesma noite, na minha cama, vestida com o pijama de flanela, confusa e desorientada, como se de repente me encontrasse num país estrangeiro e não no meu quarto. Ainda estava escuro. Tentei ficar o mais imóvel possível, olhos abertos, para o caso de o quarto começar a dançar e o teto começar a desbotar de novo.
Mas a casa não se mexeu, mesmo quando repassei, em detalhes nítidos, tudo o que tinha visto. Tudo o que tinha sentido. Eu tinha visto Arthur beber sangue. Tinha mesmo? Foi uma coisa turva, confusa. E aquele cheiro... Talvez o Dr. Zsoldos tivesse dado a Arthur algum tipo de bebida alcoólica romena, alguma poção ou sei lá o quê. Talvez eu houvesse entendido mal, em meio ao pânico e ao medo.
Mas o que eu não podia explicar era como havia me sentido quando acreditei que Arthur estivesse morto. Sofrimento. O maior sofrimento que eu poderia imaginar. Como se um buraco tivesse sido aberto na minha alma.
Essa foi a parte que me assustou de verdade.


Continua...

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