Fechei os olhos, incrédula.
Balançando a cabeça, tentei pensar direito, expulsar a imagem do que achava ter
visto.
Havia um cheiro, também. Um
odor pungente que eu nunca tinha sentido. Bem, eu tinha sentido de leve antes,
mas agora... agora era forte demais. E estava ficando mais forte ainda.
Abri os olhos e me obriguei a
olhar de novo. Eu não percebia aquele aroma com o nariz. Eu o sentia, em algum
lugar fundo, na boca do estômago ou nos recônditos daquela parte primitiva do
cérebro que estudamos na aula de biologia. A área que controla o sexo, a agressividade
e... O prazer?
Arthur se empertigou mais um
pouco, sustentando-se num dos cotovelos, ainda bebendo com volúpia, como se não
conseguisse se fartar. Mas logo não restava mais nada. O saco estava vazio. Arthur
então tombou de volta com um gemido que, de algum modo, conseguiu revelar uma
agonia crua e pura satisfação. Papai segurou seus ombros nus bem a tempo.
– Descanse, Arthur – insistiu
papai.
Mamãe limpou com um pano o
peito dele, onde o sangue tinha se derramado.
Sangue. Ele estava bebendo
sangue.
Fechei os olhos de novo, dessa
vez com mais força. Então aconteceu uma coisa estranha, porque eu estava
agachada num chão sólido, de madeira, que teoricamente não podia se mexer, mas
que começou a balançar e girar sob meus pés. Toda a casa oscilava ao meu redor
e, mesmo quando abri os olhos, tentando me orientar, senti que eles giravam por
vontade própria na direção do teto, que foi desbotando como uma tela de cinema
quando o filme acaba.
Acordei mais tarde, naquela
mesma noite, na minha cama, vestida com o pijama de flanela, confusa e
desorientada, como se de repente me encontrasse num país estrangeiro e não no meu
quarto. Ainda estava escuro. Tentei ficar o mais imóvel possível, olhos
abertos, para o caso de o quarto começar a dançar e o teto começar a desbotar
de novo.
Mas a casa não se mexeu, mesmo
quando repassei, em detalhes nítidos, tudo o que tinha visto. Tudo o que tinha
sentido. Eu tinha visto Arthur beber sangue. Tinha mesmo? Foi uma coisa turva,
confusa. E aquele cheiro... Talvez o Dr. Zsoldos tivesse dado a Arthur algum tipo
de bebida alcoólica romena, alguma poção ou sei lá o quê. Talvez eu houvesse
entendido mal, em meio ao pânico e ao medo.
Mas o que eu não podia
explicar era como havia me sentido quando acreditei que Arthur estivesse morto.
Sofrimento. O maior sofrimento que eu poderia imaginar. Como se um buraco
tivesse sido aberto na minha alma.
Essa foi a parte que me
assustou de verdade.
Continua...

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