Mas
não fui rápida o bastante. Quando a alcancei atrás da estrebaria, Faith se
aproximara da égua e do cavaleiro e estava balançando o chicote, chamando a
atenção de Arthur. O chicote roçou o flanco do animal e Fera girou furiosa,
recuando, quase arrancando as rédeas das mãos de Arthur antes que ele
percebesse o que estava acontecendo. Ouvi Arthur ordenar que Faith largasse o
chicote, mas era tarde demais.
A
égua empinou, dando com as patas no ar, perto demais de Faith. Gritei, vendo o
que iria acontecer, e então Arthur empurrou a garota, colocando-se na frente
dos cascos e depois caindo debaixo deles. Houve um estalo horrível quando a
força dos cascos de Fera, impelidos por uma tonelada de cartilagens e músculos,
colidiu com as pernas e as costelas de Arthur. Tudo acabou em segundos, antes
que eu pudesse sequer gritar de novo, e de repente Arthur estava caído, o corpo
comprido dobrado, quebrado, sobre a grama. Havia sangue na camisa branca dele,
sangue escorrendo da bota de cano alto e manchando a calça cáqui.
– Arthur!
Finalmente encontrei minha voz e gritei,
correndo, abaixando-me ao lado dele. Estava tão apavorada que me esqueci do
monstro perigoso que se erguia ainda solto perto do meu ombro.
– Pegue-a – pediu Arthur, com os dentes
trincados enquanto tentava rolar de lado, indicando a égua que estava parada,
arfando, com medo e ainda cautelosa.
– Você consegue. Antes que ela...
Faith
começou a chorar aos berros, mas ninguém nos ouvia atrás da estrebaria. Todos
estavam lá dentro, assistindo à competição. Fera tinha parado, com a cabeça
baixa, fungando como uma sentinela furiosa acima de Arthur. Eu podia sentir seu
hálito quente no meu pescoço e então fiquei apavorada por mim também. Nada de
movimentos bruscos...
–
Ela precisa ser amarrada, Rô – implorou Arthur, contraindo-se com o esforço
das palavras. Assenti em silêncio, pois sabia que ele estava certo.
Levantando-me bem devagar, o mais lentamente possível, me virei.
–
Calma, garota – sussurrei, estendendo as mãos com as palmas para cima. A égua
se encolheu e eu também. Mantenha a calma, Rô... Cheguei mais perto. Os olhos
de Fera giraram loucamente, mas ela não fugiu. Não deu coices. Parecia entender
que alguma coisa tinha dado errado. Estendi as mãos trêmulas para as rédeas
soltas que pendiam do freio.
–
Calma, garota. Mantive os olhos fixos nos dela e localizei as rédeas com as
pontas dos dedos. A respiração da égua continuava pesada e rápida, mas ela
ainda estava parada. Arthur gemeu. Eu precisava agir depressa. Movendo-me com
mais segurança, porém com os dedos trêmulos, enrolei as rédeas numa estaca
presa ao chão. Graças a Deus. Ela estava sob controle. Corri de volta para Arthur,
que apertava as costelas por cima da camisa ensanguentada. Fiquei de joelhos e
segurei sua mão livre.
– Está tudo bem – prometi. Mas não conseguia
desviar os olhos de sua perna. Havia uma fratura na metade da canela e a bota
de couro estava dobrada.
–
Chama alguém para ajudar – gritei para Faith, que parecia paralisada.
–
Foi um acidente – ela choramingava sem parar.
–
Vai chamar alguém! – gritei com ela de novo. – Agora!
–
Não! – rosnou Arthur, mais alto do que eu imaginaria ser possível, dada a
posição retorcida de seu corpo. Mas algo em seu tom interrompeu Faith e ela se
virou.
–
Chame os pais de Roberta. Mais ninguém. Faith hesitou, em pânico, perplexa,
incerta. Olhou para mim.
–
Chama os médicos de plantão – implorei a Faith. O que Arthur estava fazendo?
Ele precisava de uma ambulância.
– Só
os pais de Roberta – disse Arthur, cuja voz se sobrepôs à minha em seu tom mais
autoritário. E me segurou pela mão para que eu não pudesse ir.
– Eu... eu... – Faith começou a dizer alguma
coisa.
–
Vá! – ordenou Arthur. Faith saiu correndo. Rezei para que ela trouxesse os
médicos.
–
Droga, isso dói – gemeu Arthur, o rosto se retorcendo enquanto uma onda de dor
o atravessava. Ele apertou minha mão.
– Fique aqui, está bem?
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário