Fiquei tão alucinada que desci
de novo no meio da noite, me esgueirando até a sala de jantar. O fogo da
lareira fora atiçado e Arthur estava deitado de costas na mesa, mas agora havia
um travesseiro sob sua cabeça. Puseram um cobertor mais quente sobre o lençol,
que cobria seu corpo dos ombros aos pés. Meu pai ainda estava lá, cochilando na
cadeira de balanço e roncando baixinho, mas mamãe tinha sumido, e o Dr. Zsoldos
também, além de sua maleta e da bolsa com a qual eu havia provavelmente
sonhado...
Fui de mansinho até perto do
rosto de Arthur. Não havia vestígios de nada vermelho em seus lábios, nem
mancha no queixo, nenhuma sugestão de mudança em sua boca. Só um rosto pálido,
ferido, agora familiar. Enquanto eu o observava, ele deve ter sentido uma
presença, ou talvez sonhasse, porque se mexeu um pouco e a mão tombou da mesa.
A posição parecia desconfortável, por isso, depois de esperar um pouco para ver
se ele se moveria mais uma vez, segurei seu pulso com cuidado e o coloquei de
volta na mesa. Apesar do cobertor e do fogo que estalava ali perto, sua pele
estava fria demais ao toque – na verdade, gelada. Ele estava sempre muito frio.
Meus dedos escorregaram para baixo, envolvendo os de Arthur por um momento,
para oferecer algum conforto ou calor.
Ele estava vivo.
Então comecei a chorar, o mais
baixo que pude, num grande esforço para não acordar papai. Deixei que as
lágrimas escorressem pelo rosto e pingassem nas nossas mãos entrelaçadas. Arthur
me deixava maluca. Ele era maluco. Mas não importava. Eu não queria ter que
enfrentar de novo aquela perda. Nunca mais.
Soltei um soluço, incapaz de
me conter. Ao ouvir o som, papai gemeu, a fungada forte de alguém tentando
dormir numa cadeira dura, e temi que ele acordasse. Por isso, soltei a mão de Arthur,
enxuguei o rosto na manga e voltei para o quarto. De qualquer modo, já estava quase
amanhecendo.
Continua...

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