Furiosa, apavorada e frustrada, subi correndo e esqueci a
pobre Bela. Sinto vergonha de admitir que ela passou a noite toda no frio de
novembro, andando em volta do estábulo, com a sela ainda no lombo. Eu estava
atordoada demais para pensar no animal que havia me ajudado a conquistar um
pouco de glória havia apenas algumas horas. Em vez disso, subi na cama e olhei
pela janela, tentando descobrir o que fazer.
Enquanto pensava se deveria chamar um médico, vi meu pai
sair de casa e atravessar o quintal rapidamente em direção à garagem. A luz se
acendeu no quarto de Arthur, mas só por alguns instantes. Ela se apagou de novo
e, segundos mais tarde, papai voltou, caminhando depressa pelo gramado. Pude
ver, à luz do luar, que ele carregava alguma coisa. Algo mais ou menos do
tamanho de uma caixa de sapatos mas com cantos arredondados. Um embrulho.
Esperei até que os passos de papai atravessassem a casa e que
a porta da sala de jantar se fechasse. Então desci, evitando todas as partes
barulhentas do piso que poderiam me entregar. Fui na ponta dos pés até a porta
da sala de jantar e virei a maçaneta, abrindo só uma fresta. O bastante para
poder ver lá dentro.
O fogo na lareira estava quase apagado e a iluminação era
mínima, mas eu conseguia enxergar a cena. Arthur estava deitado na nossa grande
mesa de jantar de madeira, a que usávamos para ocasiões especiais. Estava com o
peito nu, sem as roupas sujas de sangue, e a parte de baixo do corpo fora
coberta com um lençol branco. Seu rosto estava sereno. Os olhos, fechados. A boca,
tranquila. Parecia um cadáver. Eu nunca tinha ido a um funeral, mas achei que
ninguém poderia parecer mais morto do que Arthur naquele momento.
Ele está morto?
Olhei para o peito dele, desejando que se mexesse, mas, se
os pulmões funcionavam, estavam fracos demais para que eu pudesse distinguir
seu movimento na sala mal iluminada.
Por favor, Arthur. Respire.
Quando o peito de Arthur não deu sinal de vida, algo se abriu
dentro de mim e todo o meu corpo pareceu uma enorme caverna com um vento gelado
atravessando os espaços vazios. Não, ele não pode ter morrido. Não posso deixá-lo
ir. Lutei para me manter calma. Se Arthur tivesse morrido, não estariam
cuidando dele. Parariam de tratar do seu corpo. Cobririam seu rosto. Minha mãe
andava de um lado para o outro perto da lareira, com uma das mãos na boca, olhando
para meu pai e o Dr. Zsoldos, que conversavam em voz baixa junto do pacote que papai
havia apanhado na garagem.
Alguma decisão devia ter sido tomada, porque o Dr. Zsoldos
pegou uma faca – um bisturi? – numa bolsa preta. Ele vai operar o Arthur? Na
nossa mesa?
Quase me virei, horrorizada demais para olhar. Mas, não, o
charlatão húngaro não cortou Arthur. Apenas rompeu o barbante que amarrava o
pacote e rasgou o papel. Levantou o conteúdo, aninhando-o como se estivesse
fazendo o parto de um bebê – um bebê mole, escorregadio, que quase escapou de suas
mãos. Que troço era aquele? Inclinei a cabeça um pouco mais para a frente,
encostando o rosto na fresta e lutando para controlar a respiração e não ser
descoberta. Mas ninguém prestava atenção na porta. Mamãe, papai e o Dr. Zsoldos
estavam olhando aquela... coisa nas mãos do húngaro. Parecia algum tipo de
bolsa, feita de um material que eu não conseguia identificar. Mas era algo maleável,
porque dançava nas mãos do Dr. Zsoldos, como gelatina num saco plástico.
– Deveríamos ter imaginado que ele guardaria isso – sussurrou
o Dr. Zsoldos, assentindo, a barba branca balançando.
– É – concordou mamãe, agora avançando na direção de Arthur.
– Deveríamos ter imaginado.
Papai assentiu e os dois enfiaram os braços sob os ombros de
Arthur, levantando-o com delicadeza, até deixá-lo quase sentado. Arthur emitiu
um som, algo entre um gemido de dor e o rugido de um leão furioso e ferido.
Meus dedos úmidos escorregaram na maçaneta ao ouvir aquilo. Não era totalmente
humano nem totalmente animal. Mas era arrepiante e reverberava pelas paredes.
Enxuguei as mãos na calça de montaria, forçando a vista para
entender a cena diante de mim.
O Dr. Zsoldos se inclinou para o paciente e estendeu a bolsa
como uma oferenda diante do rosto de Arthur. A luz da lareira se refletiu nos
óculos do médico e ele sorriu de leve enquanto encorajava, baixinho:
– Beba, Arthur. Beba.
O paciente não reagiu. A cabeça de Arthur tombou de lado e
papai mudou de posição para segurá-la, firmando-a. O Dr. Zsoldos hesitou,
depois pegou o bisturi de novo, usando-o para furar a bolsa, bem embaixo do
nariz de Arthur. Os olhos que eu temia terem se apagado para sempre se abriram com
um tremor. Soltei um grito.
Sempre escuros, agora os olhos de Arthur estavam totalmente
pretos. As pupilas pareciam ter consumido as íris e a maior parte da área
branca também. Eu nunca tinha visto olhos como aqueles. Era impossível me
desvencilhar deles.
Ele abriu a boca e seus dentes tinham mudado de novo.
Meus pais deviam ter escutado meu grito, mas era tarde
demais. Eles também estavam hipnotizados enquanto Arthur inclinava a cabeça,
cravando as presas na bolsa e bebendo com a expressão exausta, ainda que
sedento. Um pouco de líquido escorreu pelo queixo e pelo peito. Líquido escuro.
Líquido grosso. Eu tinha visto um líquido assim antes, havia poucas horas,
manchando aquele mesmo peito.
NÃO.
Continua...

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