Estava escuro quando
cheguei em casa, montando Bela. Havíamos seguido
um caminho alternativo, atravessando milharais vazios e evitando as estradas ao
máximo, quase como se eu estivesse com medo de ser seguida.
Não quis pegar carona para casa com nenhuma das pessoas que tinham oferecido,
como Faith ou os líderes do Clube da Juventude.
Principalmente eles, cujas perguntas eu já havia respondido
pelo menos 50 vezes. Eles pegariam no meu pé e perguntariam por que nenhum dos
hospitais da região parecia saber nada sobre um garoto ferido por um cavalo. E
depois iam querer falar com meus pais e então entrariam na nossa casa e
descobririam Arthur Aguiar quase morto – ou morto de fato – no nosso sofá, com
meu pai tentando ressuscitá-lo usando ervas medicinais e chás.
Esporeei Bela um pouco mais ao pensar nisso. Será que Arthur podia mesmo estar morto? Como eu me
sentiria nesse caso? Será que lamentaria? Sofreria? A culpa me mordia. Será que eu
me sentiria aliviada de algum modo? E eu estava mais preocupada com Arthur ou com o papel
dos meus pais nesse desastre?
Todas essas perguntas se reviravam na minha mente enquanto
eu ia para casa, presa num passo de égua quando precisava de um jato. Nossa cavalgada
parecia ridiculamente vagarosa. Einstein
havia explicado essa sensação, não é? Relatividade. Nossa percepção do tempo depende da velocidade
com que queremos que ele passe.
Tempo. Relatividade. Ciência.
Tentei me concentrar nesses conceitos em vez de me voltar
para preocupações inúteis, mas a imagem do sangue na camisa de Arthur teimava
em reaparecer. O sangue que jorrava de sua boca. O sangue vermelho, vermelho.
Quando cheguei ao final de nossa estradinha, Bela estava num
galope imprudente e larguei as rédeas, deslizando da sela ao ver a Kombi dos
meus pais parada na frente da casa. Havia outro carro, um sedã desconhecido mas
igualmente decrépito. A casa estava toda às escuras, com exceção de algumas
luzes fracas lá dentro.
Abandonei a pobre Bela, apesar de saber que deveria colocá-la
em sua baia, subi correndo os degraus e entrei.
– Mamãe! – berrei a plenos pulmões, batendo a porta atrás de
mim.
Minha mãe surgiu vindo da sala de jantar, pedindo silêncio
com um dedo nos lábios.
– Roberta, por favor. Fale baixo.
– O que aconteceu? Como ele está?
Fui em direção à sala de jantar, mas mamãe segurou meu braço.
– Não, Roberta. Agora, não.
Examinei o rosto dela.
– Mamãe?
– É grave, mas temos motivo para acreditar que ele vai se
recuperar. Está recebendo bons cuidados. Os melhores que podemos dar, com
segurança – acrescentou, enigmática.
– Como assim, “com segurança”? – indaguei. Cuidados com segurança
eram dados nos hospitais. – E de quem é aquele carro lá fora?
– Nós chamamos o Dr. Zsoldos...
– Não, mamãe!
Não o Dr. Zsoldos. O charlatão húngaro maluco que havia
perdido a licença médica por usar controversos “remédios” tradicionais de seu
país, nos Estados Unidos, onde as pessoas tinham o bom senso de acreditar na
medicina de verdade. Eu deveria ter reconhecido o carro. Muito depois de o
restante do condado ter boicotado o velho Zsoldos, ele e meus pais continuaram
amigos, juntando-se ao redor da mesa da cozinha e conversando até altas horas
da noite sobre os idiotas que não confiavam em “terapias
alternativas”.
– Ele vai matar o Arthur!
– O Dr. Zsoldos entende Arthur e o povo dele – disse mamãe,
segurando-me
pelos ombros.
– Ele é de confiança.
– De confiança em relação a quê?
– À discrição.
Continua...

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