Voltei a futucar meu iPod, sem graça.
– Ah... Achei que você estivesse
dormindo.
– Não fique mexendo nisso enquanto conversa. – Arthur tomou o aparelho
dos meus dedos. – Claro que eu sabia que você estava lá. Tenho sono leve.
Principalmente quando cada centímetro do meu corpo está destroçado de dor.
– Desculpa. – Dei um sorriso débil. – Não queria incomodar você.
– Não... pelo contrário. Fiquei comovido. – Seus olhos se suavizaram e
todo o jeito imperioso sumiu. – Você chorou por causa da minha dor. Ninguém
nunca chorou ao me ver sofrer. Não esquecerei essa gentileza, Roberta.
– Foi como eu me senti na hora. Não pude deixar de chorar.
– Não, claro que não. – O reconhecimento pareceu lhe causar dor, de
algum modo. – Quando eu voltar à minha vida na Romênia, ninguém vai chorar ao
ver Arthur Aguiar machucado. E, quando eu sofrer, como é inevitável, vou me
lembrar de seu gesto com carinho e apreço.
– Também não vou me esquecer daquela noite – prometi. Enxuguei as palmas
das mãos nas pernas. Tinham ficado suadas. – Arthur, eu vi você beber sangue.
– Ah, o sangue. – Ele não pareceu surpreso com minha confissão. – Espero
que não tenha ficado muito perturbada. Nem enojada. Eu não julgava que você
estivesse preparada para isso. Pode ser bem repulsivo para quem não está
acostumado.
– Eu meio que desmaiei.
Arthur deu um sorriso triste e olhou pela janela.
– Mesmo inconsciente numa mesa, consegui deixar você nauseada. Que belo
talento eu tenho.
– Não. Não foi só por ter visto o sangue. Eu... também senti o cheiro.
Arthur virou a cabeça lentamente para me olhar, como se não acreditasse
no que ouvia. Vi uma pequena fagulha em seus olhos.
– Sentiu?
– Senti.
– E como era esse cheiro?
– Forte. Quase arrebatador.
– É. É assim mesmo.
– É isso o que você põe no copo de Morango Julius, não é?
Arthur sorriu, um tanto debochado.
– Eu pareço mesmo um homem que tomaria milk-shake de morango de um
quiosque de shopping? Já não expressei o que sinto a respeito de coisas
cor-de-rosa?
– É. Acho que eu deveria ter imaginado. – Uma pergunta estivera
queimando minha cabeça. Uma pergunta para qual eu não tinha certeza se queria
resposta. Mas precisava fazer. – Arthur, onde você o consegue? – Visões de
filmes antigos, de mulheres aterrorizadas usando camisolas vaporosas,
encolhidas diante de agressores com presas, surgiram na minha cabeça. – É...
violento?
– Ah, Roberta, os vampiros têm meios. Não é uma coisa tão predatória
como no passado. Boa parte fica armazenada, como vocês fazem com o vinho.
Ninguém precisa pisotear as uvas quando quer tomar champanhe. Movendo-se com
cuidado para proteger as costelas, Arthur cruzou os dedos na nuca, afundou no
travesseiro e olhou o teto. Sua voz profunda ficou pensativa.
– Dizem que nossa adega na Romênia é a melhor do mundo. Safras que datam
do século XVIII. Podemos chamar um serviçal estalando os dedos, dar o nome de
um veneno, para usar uma das minhas expressões prediletas, e nos deliciar. Um
tanto enojada e mais do que um pouco incomodamente empolgada, deixei que ele
continuasse a falar, observando-o cair mais fundo num devaneio.
– E também, é claro, quando dois vampiros se casam, quando se unem por
toda a eternidade, eles têm um ao outro. Dizem que é a melhor bebida. A fonte
mais pura. – Arthur ficou mais introspectivo ainda, mais distante. – Do macho
para a fêmea. Da mulher para o homem. Sangue compartilhado. Poderia haver um
elo mais forte entre dois seres?
Continua...

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