sábado, 25 de março de 2017

Prometida a um vampiro - Cap. 67



Voltei a futucar meu iPod, sem graça.

 – Ah... Achei que você estivesse dormindo.

– Não fique mexendo nisso enquanto conversa. – Arthur tomou o aparelho dos meus dedos. – Claro que eu sabia que você estava lá. Tenho sono leve. Principalmente quando cada centímetro do meu corpo está destroçado de dor.

– Desculpa. – Dei um sorriso débil. – Não queria incomodar você.

– Não... pelo contrário. Fiquei comovido. – Seus olhos se suavizaram e todo o jeito imperioso sumiu. – Você chorou por causa da minha dor. Ninguém nunca chorou ao me ver sofrer. Não esquecerei essa gentileza, Roberta.

– Foi como eu me senti na hora. Não pude deixar de chorar.

– Não, claro que não. – O reconhecimento pareceu lhe causar dor, de algum modo. – Quando eu voltar à minha vida na Romênia, ninguém vai chorar ao ver Arthur Aguiar machucado. E, quando eu sofrer, como é inevitável, vou me lembrar de seu gesto com carinho e apreço.

– Também não vou me esquecer daquela noite – prometi. Enxuguei as palmas das mãos nas pernas. Tinham ficado suadas. – Arthur, eu vi você beber sangue.

– Ah, o sangue. – Ele não pareceu surpreso com minha confissão. – Espero que não tenha ficado muito perturbada. Nem enojada. Eu não julgava que você estivesse preparada para isso. Pode ser bem repulsivo para quem não está acostumado.

– Eu meio que desmaiei.

Arthur deu um sorriso triste e olhou pela janela.

– Mesmo inconsciente numa mesa, consegui deixar você nauseada. Que belo talento eu tenho.

– Não. Não foi só por ter visto o sangue. Eu... também senti o cheiro.

Arthur virou a cabeça lentamente para me olhar, como se não acreditasse no que ouvia. Vi uma pequena fagulha em seus olhos.

– Sentiu?

– Senti.

– E como era esse cheiro?

– Forte. Quase arrebatador.

– É. É assim mesmo.

– É isso o que você põe no copo de Morango Julius, não é?

Arthur sorriu, um tanto debochado.

– Eu pareço mesmo um homem que tomaria milk-shake de morango de um quiosque de shopping? Já não expressei o que sinto a respeito de coisas cor-de-rosa?

– É. Acho que eu deveria ter imaginado. – Uma pergunta estivera queimando minha cabeça. Uma pergunta para qual eu não tinha certeza se queria resposta. Mas precisava fazer. – Arthur, onde você o consegue? – Visões de filmes antigos, de mulheres aterrorizadas usando camisolas vaporosas, encolhidas diante de agressores com presas, surgiram na minha cabeça. – É... violento?

– Ah, Roberta, os vampiros têm meios. Não é uma coisa tão predatória como no passado. Boa parte fica armazenada, como vocês fazem com o vinho. Ninguém precisa pisotear as uvas quando quer tomar champanhe. Movendo-se com cuidado para proteger as costelas, Arthur cruzou os dedos na nuca, afundou no travesseiro e olhou o teto. Sua voz profunda ficou pensativa.

– Dizem que nossa adega na Romênia é a melhor do mundo. Safras que datam do século XVIII. Podemos chamar um serviçal estalando os dedos, dar o nome de um veneno, para usar uma das minhas expressões prediletas, e nos deliciar. Um tanto enojada e mais do que um pouco incomodamente empolgada, deixei que ele continuasse a falar, observando-o cair mais fundo num devaneio.

– E também, é claro, quando dois vampiros se casam, quando se unem por toda a eternidade, eles têm um ao outro. Dizem que é a melhor bebida. A fonte mais pura. – Arthur ficou mais introspectivo ainda, mais distante. – Do macho para a fêmea. Da mulher para o homem. Sangue compartilhado. Poderia haver um elo mais forte entre dois seres?




Continua...

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