CARO TIO VASILE,
É com profundo pesar – e grande
temor ao pensar em sua reação – que escrevo informando que sofri um pequeno
acidente com uma égua que comprei pela internet.
Ah, o senhor teria apreciado
Fera. Uma criatura terrível, espantosa, feroz. Negra da testa aos cascos e,
desnecessário dizer, até o âmago do ser. Eu não poderia desejar menos que isso.
Voltemos à narrativa, porém.
Minha égua deliciosamente maligna me deu uma surra admirável – pela qual a
absolvo. O resultado foi uma perna quebrada, algumas costelas partidas e um
enorme buraco em um dos pulmões. Nada a que eu não tenha sobrevivido antes nas
mãos da família. Entretanto, temo precisar ficar de cama durante pelo menos uma
semana.
Não escrevo com esperança de
obter sua simpatia. (Ah, essa seria uma ideia esplêndida).
O senhor, Vasile, choroso pelo
bem-estar de alguém. Eu poderia gargalhar, (se isso não me fizesse tossir mais
sangue.) Não, levo a pena ao papel mais no interesse de dar aos Messi o que
lhes é devido, já que nunca fui econômico com eles em termos de críticas.
(Lembra-se da minha missiva
depois daquele primeiro prato de lentilhas? Encolho-me só de pensar.)
Nessa crise, no entanto, para
seu crédito, Robert e Eva estiveram à altura da ocasião, compreendendo de
imediato que levar um morto-vivo ao hospital seria uma atitude infeliz.
(Quantos de nossos irmãos modernos foram inconvenientemente guardados em
necrotérios durante dias – e até mesmo em mausoléus durante anos – por conta da
falta do que os humanos chamam de “sinais vitais”?)
Ora, como sempre, eu divago. De
volta ao ponto: talvez tenhamos sido injustos com os Messi. Eles demonstraram
grande presença de espírito e, mais importante, se arriscaram por minha causa.
Quase sinto vontade de repor seus horrendos bonecos como gesto de gratidão.
Será que o senhor poderia mandar que algumas mulheres daí fizessem algum boneco
grosseiro com, digamos, um carretel de madeira e alguns pedaços de lã?
Nada bonito. Os padrões
estéticos para essa coleção específica não eram elevados, acredite. “Feio” e
“malfeito” pareciam ser os critérios fundamentais.
Quanto a Lua... Vasile, o que
posso dizer? Ela reagiu ao meu acidente com o valor, a vontade e a coragem de
uma verdadeira princesa vampira. E, todavia, uma princesa possuidora de um
coração gentil. Devemos nos perguntar o que isso significaria para ela em nosso
mundo.
Vasile, poucas vezes eu
afirmaria ter mais experiência do que o senhor em relação a qualquer assunto.
Sabe que sou humilde diante de sua capacidade. Mas eu me arriscaria a me dirigir
ao senhor com alguma autoridade aqui, como alguém que já passou um tempo
considerável em contato íntimo com os humanos.
(Sem dúvida o senhor já está
furioso diante de minha impertinência – acredite, posso sentir a ardência de
sua mão no meu rosto, mesmo a vários milhares de quilômetros de distância –,
mas devo continuar.)
Vivendo em nosso castelo,
isolado no alto dos Cárpatos, o senhor teve pouco contato com os que não
pertencem à nossa raça. Só conhece o modo de vida dos vampiros – o modo de vida
dos Aguiar. O modo de vida feito de sangue e violência e a luta árdua pela
sobrevivência. A batalha interminável pelo domínio.
Nunca viu Robert Messi agachado
sobre uma caixa repleta de gatinhos, alimentando os com um conta-gotas – quando
nosso povo teria jogado os bichos trêmulos ao relento, vendo-os serem
carregados pelas aves de rapina, sem lamentar. Pelo contrário: com um
sentimento de satisfação pelo falcão que não sentiria fome naquela noite.
O senhor nunca sentiu a mão
trêmula de Eva Messi procurando sua pulsação enquanto se está caído, prostrado
– vulnerável! –, seminu, ferido, numa mesa de madeira.
O que alguém de nossa espécie
teria feito, Vasile? Se Eva fosse uma Blanco, e não uma Messi, não ficaria
tentada a exterminar o príncipe rival naquele momento oportuno? No entanto, ela
temeu por minha vida.
Essa foi a criação que Lua
recebeu. Ela não é simplesmente uma americana, mas uma Messi. Não uma Blanco.
Foi mimada com gatinhos, gentileza e carinhos.
Alimentada com tofu no lugar dos
despojos encharcados de sangue de uma carnificina.
E o senhor não a ouviu chorar,
Vasile. Não sentiu seu sofrimento, como eu senti, quando pensou que eu
estivesse destruído. Isso foi palpável para mim, Vasile. Rasgou-a por dentro.
Lua – não, Roberta – é suave.
Seu coração é tão terno que ela não poderia deixar de sofrer até mesmo por mim:
um homem que ela mal consegue suportar.
Seus inimigos – e nós sabemos
que, como princesa, ela iria tê-los, até mesmo em tempos de paz – sentirão o
cheiro dessa fraqueza, assim como senti seu sofrimento. Em determinado
instante, alguma outra fêmea ascenderia, sedenta de poder, faminta para tomar o
lugar de Roberta. Não é assim que o nosso mundo funciona? E, quando
confrontada, no momento da verdade, Roberta hesitaria, só por uma fração de
segundo, sem saber se suportaria o desperdício de uma vida – e estaria perdida.
Nem mesmo eu poderia protegê-la o tempo todo.
No passado, temo ter pensado em Roberta
de modo superficial. Fui culpado (nós fomos culpados?) de acreditar que aulas
de etiqueta, uma mudança de roupas e uma cravada funda e satisfatória de dentes
no pescoço pudessem transformá-la em uma vampira da realeza.
Mas o senhor não a ouviu chorar,
Vasile. Não sentiu as lágrimas dela caírem no seu rosto, na sua mão.
Pode ser que o império dos
vampiros sobreviva a Lua. Mas Lua sobreviveria ao império? Ela se mostra
promissora, Vasile, mas necessitaria de anos para atingir a maturidade. Nesse meio
tempo, seria aniquilada.
Talvez a medicação esteja me
afetando. Para ser sincero, Vasile, os Messi têm um curandeiro húngaro
maravilhoso, muito indulgente com relação às prescrições, se é que o senhor me
entende. É, talvez seja a infinidade de poções que percorrem minhas veias e
saturam meu cérebro, mas reflito sobre essas coisas aqui, deitado – perdendo,
devo acrescentar, o primeiro jogo de basquete da temporada.
Voltemos a Roberta. Nós,
vampiros, não temos alma. Mas não traímos os nossos, não é?
Não destruímos arbitrariamente,
correto? E temo que virar vampira acabaria por destruir Roberta.
Será que não deveríamos
considerar a hipótese de liberá-la para ser uma adolescente humana e normal? E
deixar os problemas do nosso mundo no lugar deles: em nosso mundo e não nos
ombros de uma garota americana inocente que só anseia por montar sua égua, rir
com a melhor amiga e trocar beijos “legais” com um camponês simplório?
Estou ansioso por suas ideias,
ao mesmo tempo que prevejo sua reação negativa. No entanto, o senhor me criou
não somente para ser implacável, mas também digno, Vasile, e sinto o dever de
trazer essas questões à luz.
Seu sobrinho, em recuperação,
Arthur
P.S.: Sobre o boneco: peça olhos
de botão, se possível. Isso parecia ser um traço comum.

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