segunda-feira, 20 de março de 2017

Prometida a um vampiro - Cap. 63


CARO TIO VASILE,
É com profundo pesar – e grande temor ao pensar em sua reação – que escrevo informando que sofri um pequeno acidente com uma égua que comprei pela internet.
Ah, o senhor teria apreciado Fera. Uma criatura terrível, espantosa, feroz. Negra da testa aos cascos e, desnecessário dizer, até o âmago do ser. Eu não poderia desejar menos que isso.
Voltemos à narrativa, porém. Minha égua deliciosamente maligna me deu uma surra admirável – pela qual a absolvo. O resultado foi uma perna quebrada, algumas costelas partidas e um enorme buraco em um dos pulmões. Nada a que eu não tenha sobrevivido antes nas mãos da família. Entretanto, temo precisar ficar de cama durante pelo menos uma semana.
Não escrevo com esperança de obter sua simpatia. (Ah, essa seria uma ideia esplêndida).
O senhor, Vasile, choroso pelo bem-estar de alguém. Eu poderia gargalhar, (se isso não me fizesse tossir mais sangue.) Não, levo a pena ao papel mais no interesse de dar aos Messi o que lhes é devido, já que nunca fui econômico com eles em termos de críticas.
(Lembra-se da minha missiva depois daquele primeiro prato de lentilhas? Encolho-me só de pensar.)
Nessa crise, no entanto, para seu crédito, Robert e Eva estiveram à altura da ocasião, compreendendo de imediato que levar um morto-vivo ao hospital seria uma atitude infeliz. (Quantos de nossos irmãos modernos foram inconvenientemente guardados em necrotérios durante dias – e até mesmo em mausoléus durante anos – por conta da falta do que os humanos chamam de “sinais vitais”?)
Ora, como sempre, eu divago. De volta ao ponto: talvez tenhamos sido injustos com os Messi. Eles demonstraram grande presença de espírito e, mais importante, se arriscaram por minha causa. Quase sinto vontade de repor seus horrendos bonecos como gesto de gratidão. Será que o senhor poderia mandar que algumas mulheres daí fizessem algum boneco grosseiro com, digamos, um carretel de madeira e alguns pedaços de lã?
Nada bonito. Os padrões estéticos para essa coleção específica não eram elevados, acredite. “Feio” e “malfeito” pareciam ser os critérios fundamentais.
Quanto a Lua... Vasile, o que posso dizer? Ela reagiu ao meu acidente com o valor, a vontade e a coragem de uma verdadeira princesa vampira. E, todavia, uma princesa possuidora de um coração gentil. Devemos nos perguntar o que isso significaria para ela em nosso mundo.
Vasile, poucas vezes eu afirmaria ter mais experiência do que o senhor em relação a qualquer assunto. Sabe que sou humilde diante de sua capacidade. Mas eu me arriscaria a me dirigir ao senhor com alguma autoridade aqui, como alguém que já passou um tempo considerável em contato íntimo com os humanos.
(Sem dúvida o senhor já está furioso diante de minha impertinência – acredite, posso sentir a ardência de sua mão no meu rosto, mesmo a vários milhares de quilômetros de distância –, mas devo continuar.)
Vivendo em nosso castelo, isolado no alto dos Cárpatos, o senhor teve pouco contato com os que não pertencem à nossa raça. Só conhece o modo de vida dos vampiros – o modo de vida dos Aguiar. O modo de vida feito de sangue e violência e a luta árdua pela sobrevivência. A batalha interminável pelo domínio.
Nunca viu Robert Messi agachado sobre uma caixa repleta de gatinhos, alimentando os com um conta-gotas – quando nosso povo teria jogado os bichos trêmulos ao relento, vendo-os serem carregados pelas aves de rapina, sem lamentar. Pelo contrário: com um sentimento de satisfação pelo falcão que não sentiria fome naquela noite.
O senhor nunca sentiu a mão trêmula de Eva Messi procurando sua pulsação enquanto se está caído, prostrado – vulnerável! –, seminu, ferido, numa mesa de madeira.
O que alguém de nossa espécie teria feito, Vasile? Se Eva fosse uma Blanco, e não uma Messi, não ficaria tentada a exterminar o príncipe rival naquele momento oportuno? No entanto, ela temeu por minha vida.
Essa foi a criação que Lua recebeu. Ela não é simplesmente uma americana, mas uma Messi. Não uma Blanco. Foi mimada com gatinhos, gentileza e carinhos.
Alimentada com tofu no lugar dos despojos encharcados de sangue de uma carnificina.
E o senhor não a ouviu chorar, Vasile. Não sentiu seu sofrimento, como eu senti, quando pensou que eu estivesse destruído. Isso foi palpável para mim, Vasile. Rasgou-a por dentro.
Lua – não, Roberta – é suave. Seu coração é tão terno que ela não poderia deixar de sofrer até mesmo por mim: um homem que ela mal consegue suportar.
Seus inimigos – e nós sabemos que, como princesa, ela iria tê-los, até mesmo em tempos de paz – sentirão o cheiro dessa fraqueza, assim como senti seu sofrimento. Em determinado instante, alguma outra fêmea ascenderia, sedenta de poder, faminta para tomar o lugar de Roberta. Não é assim que o nosso mundo funciona? E, quando confrontada, no momento da verdade, Roberta hesitaria, só por uma fração de segundo, sem saber se suportaria o desperdício de uma vida – e estaria perdida. Nem mesmo eu poderia protegê-la o tempo todo.
No passado, temo ter pensado em Roberta de modo superficial. Fui culpado (nós fomos culpados?) de acreditar que aulas de etiqueta, uma mudança de roupas e uma cravada funda e satisfatória de dentes no pescoço pudessem transformá-la em uma vampira da realeza.
Mas o senhor não a ouviu chorar, Vasile. Não sentiu as lágrimas dela caírem no seu rosto, na sua mão.
Pode ser que o império dos vampiros sobreviva a Lua. Mas Lua sobreviveria ao império? Ela se mostra promissora, Vasile, mas necessitaria de anos para atingir a maturidade. Nesse meio tempo, seria aniquilada.
Talvez a medicação esteja me afetando. Para ser sincero, Vasile, os Messi têm um curandeiro húngaro maravilhoso, muito indulgente com relação às prescrições, se é que o senhor me entende. É, talvez seja a infinidade de poções que percorrem minhas veias e saturam meu cérebro, mas reflito sobre essas coisas aqui, deitado – perdendo, devo acrescentar, o primeiro jogo de basquete da temporada.
Voltemos a Roberta. Nós, vampiros, não temos alma. Mas não traímos os nossos, não é?
Não destruímos arbitrariamente, correto? E temo que virar vampira acabaria por destruir Roberta.
Será que não deveríamos considerar a hipótese de liberá-la para ser uma adolescente humana e normal? E deixar os problemas do nosso mundo no lugar deles: em nosso mundo e não nos ombros de uma garota americana inocente que só anseia por montar sua égua, rir com a melhor amiga e trocar beijos “legais” com um camponês simplório?
Estou ansioso por suas ideias, ao mesmo tempo que prevejo sua reação negativa. No entanto, o senhor me criou não somente para ser implacável, mas também digno, Vasile, e sinto o dever de trazer essas questões à luz.
Seu sobrinho, em recuperação,
Arthur

P.S.: Sobre o boneco: peça olhos de botão, se possível. Isso parecia ser um traço comum.

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