– Bom, até que enfim você saiu da garagem, como queria – provoquei. – Não acredito que viva desse jeito. – Arthur deu um risinho, apoiado em meus travesseiros de cetim cor-de-rosa.
No meu
quarto.
Mamãe tinha insistido para que ele se mudasse
para dentro de casa até que sua perna ficasse boa. O gesso estava apoiado no
cachorro-quente de pelúcia.
– É como viver num casulo fofo, feito de
algodão-doce. – Ele fez uma careta. – É rosa demais.
– Gosto
de rosa. Arthur fungou.
– O rosa
é somente o primo patético e débil do vermelho.
– Bom,
não é para sempre. Você vai voltar logo para seu calabouço escuro com as armas
enferrujadas. – Olhei o quarto em volta. – Viu meu iPod?
–
Refere-se a isso? Arthur localizou o aparelho entre camadas de lençóis e o
ergueu.
– É. –
Estendi a mão. – Me dá.
– Ah, não
posso ficar com ele? É tão chato ficar confinado aqui. E estou gostando de
explorar suas preferências musicais. Lá vamos nós.
– Por que
não compra um?
– Mas o
seu já tem Black Eyed Peas – zombou ele.
– Não seja idiota.
– Gosto
deles. Estou falando sério. – Um sorriso diabólico atravessou seu rosto. – “My
humps, my humps, my humps!” Minha bunda, minha bunda, minha bunda! Quem não
iria gostar disso? Arranquei o iPod de sua mão e ele riu. Eu ri também.
– Se você
não estivesse todo arrebentado...
– Faria o
quê? – Ele agarrou meu pulso com uma velocidade espantosa para quem estava com
as costelas partidas. – Iria me bater até eu pedir clemência? Só nos seus
sonhos.
É. Às vezes. Nos sonhos.
Quero
dizer, eu não sonhava que batia nele. Mas ultimamente Arthur vinha tendo mais
participações especiais no meu sono. Em casamentos. Em cavernas escuras. À luz
trêmula de velas. Ele me soltou, ficando sério.
– Eu
nunca agradeci a você apropriadamente. – Ele se levantou um pouquinho,
ajeitando-se, e se contraiu de dor com o movimento. – Por ter cuidado de Fera,
por ter ficado comigo. Você foi muito corajosa.
Mudei de
posição também, tentando não esbarrar na perna dele.
– Sinto
muito por ela ter sido sacrificada. Arthur olhou pela janela, com a boca
encurvada para baixo.
– Você
fez o que pôde. Mas acho que algumas coisas são perigosas demais para viver.
– Você
tentou domá-la – acrescentei, sem jeito. – Funcionou durante um tempo.
– Não era
da natureza dela ser domada. No fim, todos somos fiéis à nossa natureza. À
nossa criação. Ficamos sentados em silêncio durante algum tempo e me perguntei
no que Arthur estaria pensando. Na égua ou nele mesmo?
–
Parabéns pelo segundo lugar – disse ele. Acompanhei seu olhar até o quadro de
cortiça na parede, onde eu havia pendurado a fita vermelha de vice-campeã ao
lado de um punhado de outras azuis das competições de matemática que eu
vencera. Claro, Faith Crosse tinha ficado com a fita azul. Meu desempenho havia
sido bom, mas não o suficiente.
– Você
merecia a azul – confessei a Arthur, séria.
– Que
estranho eu ter sido “banido por toda a vida” da competição – observou ele, com
ironia. – Eles criaram uma regra nova, ficou sabendo? Só para mim. “É proibido
levar animais ferozes para eventos públicos.” Fui o primeiro transgressor. Um
pioneiro em violar a lei, por assim dizer. – Ele riu, tossiu forte e colocou as
mãos sobre as costelas.
–
Desgraça.
Fiquei mexendo no iPod.
– Arthur?
– O que
foi, Roberta? Encarei seus olhos negros.
– Eu
estava lá. Naquela noite.
– Eu sei.
– Sabe?
– Você
chegou perto de mim tarde da noite. Segurou minha mão.
Continua...

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