– Mamãe, quero que me conte o que
aconteceu naquela noite.
Minha mãe estava no escritório de
casa, óculos na ponta do nariz, examinando à luz pálida da luminária de mesa as
últimas publicações acadêmicas que havia recebido. Ao som da minha voz, ergueu
os olhos.
– Eu já esperava que viesse falar comigo sobre
isso, Rô. Ela indicou a espreguiçadeira de segunda mão e cheia de calombos, que
servia como poltrona de visita. Eu me afundei nela, puxando o cobertor de lã
peruano por cima das pernas. Mamãe girou sua cadeira na minha direção e
empurrou os óculos para o alto da cabeça, me dando total atenção.
– Por onde deveríamos começar?
Com o que aconteceu entre você e Arthur no terraço? Fiquei vermelha e desviei o
olhar.
– Não. Não quero falar sobre
isso. Quero falar sobre o que aconteceu há duas noites. Quando trouxeram Arthur
para cá. Por que não foram para um hospital?
– Eu lhe disse, Roberta. Arthur é especial. É
diferente.
– Diferente como?
– Arthur é um vampiro, Roberta.
Um médico que estudou numa faculdade americana não saberia como tratá-lo.
– Ele é só um garoto, mamãe –
insisti.
– É mesmo? É nisso que você ainda acredita?
Mesmo depois do que viu, agachada perto da porta? Olhando para minhas mãos,
torci em volta do dedo um fio solto e o arranquei do cobertor.
– É confuso demais, mamãe.
– Roberta?
– Hein?
– Você tocou Arthur.
– Mamãe, por favor... Não íamos
falar disso de novo, íamos? Mamãe me encarou.
– Seu pai e eu não somos cegos.
Seu pai pegou o finzinho de seu... momento com Arthur na noite do Halloween. Fiquei
feliz com o fato de que a luminária mal lançava luz sobre a mesa, porque minhas
bochechas estavam pegando fogo.
– Foi só um beijo. Na verdade nem
foi isso.
– E quando tocou Arthur você não
notou nada incomum? A frieza. Eu soube na hora o que ela queria dizer, mas, por
algum motivo, fui evasiva.
– Não sei. Talvez. Mamãe percebeu
que eu não estava sendo completamente honesta. Ela não tinha paciência com
pessoas que ficavam com preguiça de pensar quando encaravam um conceito
difícil. Pôs os óculos de novo no nariz.
– Quero que pense no que viu na
sala de jantar. No que sentiu. No que você acredita.
– Eu quero acreditar no que é
real – choraminguei. – Quero entender a verdade. Você se lembra do Iluminismo?
A ordem geométrica substituindo a superstição? De Isaac Newton, que desvendou o
“mistério” da gravidade? E que disse um dia: “Minha maior amiga é a verdade.”
Como um vampiro pode ser real? Mamãe me encarou por um longo momento. Pude
ouvir o tique-taque do relógio sobre a mesa enquanto ela organizava seu considerável
estoque de conhecimento.
– Isaac Newton – disse mamãe,
finalmente – manteve a fé na astrologia durante toda a vida. Você sabia desse
aspecto de seu suposto cientista racional?
– Não – admiti. – Não sabia.
– E lembra-se de Albert Einstein?
– observou mamãe, presunçosa. – Aquele que desvendou o átomo, algo que mal
poderíamos conceber há apenas um século? Uma vez Einstein disse: “A coisa mais
linda que podemos experimentar é o mistério.” – Ela fez uma pausa. – Se os
átomos podem existir, escondidos e ao mesmo tempo em todo lugar, há milênios,
por que não um vampiro?
Droga. Ela era boa nisso.
– Mamãe...
– O que é, Roberta?
– Eu vi Arthur beber sangue. E vi
os dentes dele. De novo. Mamãe segurou minha mão e a apertou.
– Bem-vinda ao mundo do mistério,
Roberta. – Uma sombra atravessou seu rosto. – Por favor, tenha cuidado. É um
território muito, muito traiçoeiro. Totalmente indomado. O mistério pode ser
lindo. E perigoso. Eu sabia o que ela queria dizer. Arthur.
– Vou ter cuidado, mamãe.
– A família Aguiar tem a reputação de ser
implacável – acrescentou, de forma mais direta. – Você sabe que seu pai e eu
gostamos muito de Arthur e que ele é encantador, mas também devemos ter em
mente que a criação dele foi bem diferente da sua. E não só em termos de posses
materiais.
– Eu sei, mamãe. Ele me contou um
pouquinho. Além disso, como vivo dizendo a vocês, não estou a fim dele.
Mentirosa.
– Bom, saiba que estou sempre
aqui, disposta a conversar. Seu pai também.
– Obrigada, mamãe. – Empurrei o
cobertor de lado e me levantei para ir embora, beijando o rosto dela.
– Por enquanto, só preciso
pensar.
– Claro. – Mamãe voltou para suas
publicações. – Eu te amo, Roberta – acrescentou por cima do ombro enquanto eu
fechava a porta. Apesar dos avisos, apesar de suas preocupações óbvias comigo,
jurei ter percebido uma levíssima sugestão de sorriso em sua voz.
Continua...

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