– Não vou a lugar algum – respondi, num
esforço para que a voz não falhasse. Estava aterrorizada e lutava para não
deixar que Arthur visse meu medo.
Um fio de sangue escorria de sua boca e
eu contive a ânsia de gritar. Isso devia ser mau sinal. Poderia indicar uma
hemorragia interna. Limpei o líquido vermelho com os dedos trêmulos e uma
lágrima caiu no rosto dele. Eu nem tinha percebido que estava chorando.
– Por favor, não faça isso –
ofegou Arthur, me encarando. – Não desmorone por minha causa. Lembre-se: você é
da realeza.
Apertei sua mão com mais força.
– Não estou chorando. Aguenta
firme aí. Ele se remexeu um pouco, encolhendo-se.
– Sabe... isso não pode matar um... Meu
Deus, ele ainda ia falar naquela palhaçada de vampiro? Nunca acreditei nem por
um segundo que ele não poderia morrer.
– Fica parado.
– Essa perna... Porcaria.
Seu peito arfava e ele tossiu. Mais
sangue. Um monte de sangue. Sangue de mais. Saía de seus pulmões. Provavelmente
haviam sido perfurados. As aulas de primeiros socorros na escola tinham sido em
número suficiente para que eu soubesse um pouco sobre acidentes. Limpei seus
lábios com a manga da minha blusa, mas isso só espalhou mais sangue em nós.
– Os médicos já estão vindo – prometi.
Mas será que chegarão tarde demais? Por instinto, alisei o cabelo de Arthur com
minha mão livre. Seu rosto relaxou só um pouquinho e a respiração se acalmou de
leve. Mantive a mão ali, pousada em sua testa.
– Rô? Ele procurou meu rosto com
os olhos.
– Não fale.
– Eu... eu acho que você
merece... um prêmio. Mesmo contra a vontade eu ri, um riso áspero, tenso, e me
abaixei para beijar sua testa. Aquilo simplesmente aconteceu. Pareceu a coisa
certa a fazer.
– Você também. Seus olhos se
fecharam. Senti que sua consciência estava se esvaindo.
– E... Rô?
– Fica quieto.
– Não deixe que façam nada... com
minha égua – conseguiu dizer com a respiração difícil. – Ela não quis fazer
mal. Foi só o chicote, você sabe...
– Vou tentar, Arthur – prometi. Mas
sabia que não adiantaria. Os dias de Fera estavam contados.
– Obrigado, Lua... – Sua voz era quase
inaudível. Vindo da lateral da estrebaria, ouvi o som de pneus de carro na
grama. Soltei o ar com alívio.
Faith havia chamado a ambulância.
Mas me enganei. Quando o veículo virou a esquina, identifiquei a velha Kombi
com Ned Messi ao volante. Meus pais saltaram, o medo estampado no rosto, e me
tiraram do caminho.
– Levem-me para sua casa – implorou
Arthur, voltando um pouco a si. – Vocês sabem... Mamãe girou para me encarar.
– Abra a traseira da Kombi – ordenou. –
Mamãe, ele precisa de uma ambulância.
– Faça o que eu digo, Roberta.
Comecei a chorar de novo porque não
entendia o que estava acontecendo e não queria contribuir para a morte de
Arthur. Mas obedeci. Meus pais colocaram Arthur na Kombi com o máximo de
delicadeza possível, mas ele continuou a gemer, mesmo inconsciente. A dor era
tão grande que devia ter passado pelo seu cérebro entorpecido. Comecei a ir
atrás dele, mas papai me impediu com a mão firme no ombro. Em vez disso mamãe
entrou, agachando-se ao lado de Arthur.
– Fique aqui e explique o que
aconteceu – disse papai. – Diga a eles que levamos Arthur para o hospital. Vi a
mentira no rosto de papai e meus olhos se arregalaram.
– Vocês vão levá-lo para lá?
– Só diga a todo mundo que ele está bem
– retrucou papai, sem responder à minha pergunta. – Depois, cuide da égua.
O que eles me pediam era de mais
para mim. E se não levassem Arthur para o hospital e ele morresse? Seriam
responsáveis! Talvez acusados de negligência ou alguma modalidade de homicídio.
Faith tinha visto que Arthur não estava bem. Sabia que ele precisava de
cuidados médicos. E o Clube da Juventude verificaria se ele fora hospitalizado.
Afinal de contas, o haras poderia ser processado. Que diabo meus pais estavam
fazendo? Eles podiam ir para a cadeia. E por quê? Não fazia sentido manter
Arthur fora de um hospital. Mas não havia tempo para protestar nem para pedir
orientação. Arthur precisava ir para algum lugar quente, pelo menos. Algum
lugar onde as pessoas soubessem cuidar de ossos quebrados e pulmões sangrando.
Desde que não fosse a nossa cozinha, onde papai poderia tentar alguma cura com
ervas...
Continua...

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