quarta-feira, 15 de março de 2017

Prometida a um vampiro - Cap.56


– Não vou a lugar algum – respondi, num esforço para que a voz não falhasse. Estava aterrorizada e lutava para não deixar que Arthur visse meu medo.
Um fio de sangue escorria de sua boca e eu contive a ânsia de gritar. Isso devia ser mau sinal. Poderia indicar uma hemorragia interna. Limpei o líquido vermelho com os dedos trêmulos e uma lágrima caiu no rosto dele. Eu nem tinha percebido que estava chorando.
 – Por favor, não faça isso – ofegou Arthur, me encarando. – Não desmorone por minha causa. Lembre-se: você é da realeza.
Apertei sua mão com mais força.
 – Não estou chorando. Aguenta firme aí. Ele se remexeu um pouco, encolhendo-se.
– Sabe... isso não pode matar um... Meu Deus, ele ainda ia falar naquela palhaçada de vampiro? Nunca acreditei nem por um segundo que ele não poderia morrer.
– Fica parado.
 – Essa perna... Porcaria.
Seu peito arfava e ele tossiu. Mais sangue. Um monte de sangue. Sangue de mais. Saía de seus pulmões. Provavelmente haviam sido perfurados. As aulas de primeiros socorros na escola tinham sido em número suficiente para que eu soubesse um pouco sobre acidentes. Limpei seus lábios com a manga da minha blusa, mas isso só espalhou mais sangue em nós.
– Os médicos já estão vindo – prometi. Mas será que chegarão tarde demais? Por instinto, alisei o cabelo de Arthur com minha mão livre. Seu rosto relaxou só um pouquinho e a respiração se acalmou de leve. Mantive a mão ali, pousada em sua testa.
 – Rô? Ele procurou meu rosto com os olhos.
 – Não fale.
 – Eu... eu acho que você merece... um prêmio. Mesmo contra a vontade eu ri, um riso áspero, tenso, e me abaixei para beijar sua testa. Aquilo simplesmente aconteceu. Pareceu a coisa certa a fazer.
 – Você também. Seus olhos se fecharam. Senti que sua consciência estava se esvaindo.
 – E... Rô?
 – Fica quieto.
 – Não deixe que façam nada... com minha égua – conseguiu dizer com a respiração difícil. – Ela não quis fazer mal. Foi só o chicote, você sabe...
– Vou tentar, Arthur – prometi. Mas sabia que não adiantaria. Os dias de Fera estavam contados.
– Obrigado, Lua... – Sua voz era quase inaudível. Vindo da lateral da estrebaria, ouvi o som de pneus de carro na grama. Soltei o ar com alívio.
 Faith havia chamado a ambulância. Mas me enganei. Quando o veículo virou a esquina, identifiquei a velha Kombi com Ned Messi ao volante. Meus pais saltaram, o medo estampado no rosto, e me tiraram do caminho.
– Levem-me para sua casa – implorou Arthur, voltando um pouco a si. – Vocês sabem... Mamãe girou para me encarar.
– Abra a traseira da Kombi – ordenou. – Mamãe, ele precisa de uma ambulância.
– Faça o que eu digo, Roberta.
Comecei a chorar de novo porque não entendia o que estava acontecendo e não queria contribuir para a morte de Arthur. Mas obedeci. Meus pais colocaram Arthur na Kombi com o máximo de delicadeza possível, mas ele continuou a gemer, mesmo inconsciente. A dor era tão grande que devia ter passado pelo seu cérebro entorpecido. Comecei a ir atrás dele, mas papai me impediu com a mão firme no ombro. Em vez disso mamãe entrou, agachando-se ao lado de Arthur.
 – Fique aqui e explique o que aconteceu – disse papai. – Diga a eles que levamos Arthur para o hospital. Vi a mentira no rosto de papai e meus olhos se arregalaram.
– Vocês vão levá-lo para lá?
– Só diga a todo mundo que ele está bem – retrucou papai, sem responder à minha pergunta. – Depois, cuide da égua.
 O que eles me pediam era de mais para mim. E se não levassem Arthur para o hospital e ele morresse? Seriam responsáveis! Talvez acusados de negligência ou alguma modalidade de homicídio. Faith tinha visto que Arthur não estava bem. Sabia que ele precisava de cuidados médicos. E o Clube da Juventude verificaria se ele fora hospitalizado. Afinal de contas, o haras poderia ser processado. Que diabo meus pais estavam fazendo? Eles podiam ir para a cadeia. E por quê? Não fazia sentido manter Arthur fora de um hospital. Mas não havia tempo para protestar nem para pedir orientação. Arthur precisava ir para algum lugar quente, pelo menos. Algum lugar onde as pessoas soubessem cuidar de ossos quebrados e pulmões sangrando. Desde que não fosse a nossa cozinha, onde papai poderia tentar alguma cura com ervas...


Continua...

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