sexta-feira, 24 de março de 2017

Amante da fantasia - Cap. 110


Ela o tocou no ombro, mas foi a preocupação nos olhos azuis que o afetou.


- Você queria que seu filho fosse um soldado?


Arthur meneou a cabeça.


- Nunca quis que a juventude dele fosse abreviada, como aconteceu com tantos dos meus soldados. - disse ele, com voz rouca. - Irônico, não é? Eu nem mesmo permiti que ele ficasse com a espada de brinquedo que Kyrian lhe deu de presente de aniversário, nem deixava que ele tocasse a minha quando eu estava em casa.


Ela pôs a mão em seu pescoço e puxou-o para perto. O toque de Lua era incrivelmente reconfortante. Tão terno.


E provocava nele uma dolorosa sensação de solidão.


- Qual era o nome dele?


Arthur engoliu em seco.


Não falava em voz alta o nome de seus filhos desde o dia em que haviam morrido. Não ousara fazer isso e, ainda assim, queria compartilhar aquilo com Lua.


- Aloisius. Minha filha era Callista.


O sorriso de Lua revelava tristeza, como se ela compartilhasse a dor de sua perda.


- Eles tinham nomes lindos.


- Eram crianças lindas.


- Se eram como você, eu tenho certeza disso.


Aquela era a coisa mais amável que alguém já lhe dissera.


Arthur passou a mão pelos cabelos dela, deixando que os fios sedosos preenchessem sua palma. Fechando os olhos, desejou permanecer daquele jeito para sempre.


Foi oprimido pelo medo de perdê-la.


Nunca gostara da ideia de ser sugado para dentro daquele inferno vazio, mas agora o pensamento de nunca mais vê-la, ou de nunca mais sentir o aroma daquela pele macia, de pôr sua palma na face corada... Era mais do que podia suportar.


Pelos deuses! E ele havia pensado que estivera amaldiçoado antes!


Lua afastou-se e beijou-lhe de leve nos lábios, antes de pegar o livro.


Arthur engoliu em seco outra vez. Ela queria salvá-lo e, pela primeira vez em séculos, ele queria ser salvo.


Deslizou um pouco mais no chão, para que ela voltasse a deitar a cabeça em seu abdômen. Adorava senti-la ali, com os cabelos esparramando-se sobre seus braços e peito.


Ficaram deitados no chão até as primeiras horas da manhã, enquanto ele a escutava ler sobre Odisseu e Aquiles. Observou-a ficar cansada, mas ela prosseguiu lendo.


O relógio no andar de cima soou três horas, quando ela bocejou e virou a página. Lua tentou manter os olhos abertos, mas estava exausta e, por fim, adormeceu.


Sorrindo, ele tirou o livro das mãos dela e colocou-o de lado.


Tocou-a no rosto enquanto a observava. Ele não estava com sono. Não queria perder um único segundo ao lado de Lua.


Fitando-a, tocando-a, absorvendo-a. Apreciaria aqueles momentos para sempre. Nunca passara uma noite como aquela, apenas deitado confortavelmente com uma mulher, sem que ela o apalpasse, exigindo seu toque.


Em sua época, homens e mulheres não passavam muito tempo juntos. Durante os períodos em que estava em casa, Penélope raramente falava com ele. Na verdade, nunca demonstrara muito interesse nele.


Quando a procurava à noite, ela não o rejeitava. Porém, tampouco ansiava por seu toque. Sempre conseguira extrair uma reação acalorada do corpo da esposa, mas nunca do coração.



Continua...

Como uma mulher pode ficar, tão nem ai para esse Deus grego?


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